Nelson Freire, bachiano brasileiro

Reverenciado não apenas no Brasil, mas também no exterior, Nelson Freire, aos 71 anos de idade, parece ter chegado àquele estágio da carreira em que pode se dar ao luxo de fazer o que quer. E, quando ele quer algo, esse querer não costuma ser arbitrário, porém embasado nas melhores razões.

E eis que a unanimidade do piano brasileiro resolveu gravar Bach. Não tenho muitas lembranças do Reverendo Nelson executando esse compositor ao vivo – no máximo, vi alguma transcrição de peça curta, abrindo recital, ou como bis. Aliás, não me recordo de tê-lo ouvido tocar muita coisa anterior a Mozart. Costumo associá-lo ao século XIX, de Beethoven, Chopin, Brahms e Schumann, com eventuais incursões no século XX de Rachmaninov, Debussy e Villa-Lobos.

Mas Nelson Freire, obviamente, conhece mais sobre si mesmo do que qualquer pessoa. Desde que começou sua proveitosa associação com a multinacional Decca, em 2001, ele vem se preocupando não apenas em cristalizar as interpretações das obras às quais é mais habitualmente associado, como também em construir um legado fonográfico tão sólido quanto variado. E seu álbum bachiano é tão iluminador e prazeroso quanto qualquer outro de sua discografia, dotado da mesma qualidade poética de sempre e daquele som a um só tempo cristalino e aveludado que é a sua assinatura.


O pianista Nelson Freire [Foto: divulgação]

Não faria o menor sentido exigir que um pianista que extrai uma sonoridade tão robusta e um colorido tão variegado de seu instrumento procurasse emasculá-lo a ponto de fazê-lo soar como um cravo. Mas os puristas não precisam se escandalizar: o Bach de Nelson Freire é tão econômico em pedal quanto rico em sabedoria, clareza e bom gosto. Ele sabe diferenciar judiciosamente os diversos movimentos das obras mais longas do disco, a Partita nº 4 e a Suíte Inglesa nº 3, exibindo notável destreza e admirável domínio do contraponto na Tocata em dó menor BWV 911 e na Fantasia Cromática e Fuga BWV 903.

Somadas, as peças acima dão uma hora de audição intelectualmente gratificante, para satisfazer até o mais exigente dos ouvintes. Depois disso, porém, Freire resolveu incluir ainda meia dúzia de transcrições, que não poderiam ser mais saborosas, da lírica versão do próprio Bach do concerto para oboé em ré menor de Marcello a Jesus, Alegria dos Homens de Myra Hess, que fecha o álbum, passando pelas expansões romantizantes de Busoni e Siloti. Cada uma dessas gemas é tratada com especial carinho e dignidade, convidando a uma escuta repetida e inesgotável.

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