No “Elixir” de Belém, pratas da casa garantem bom espetáculo

por Leonardo Martinelli 12/08/2013

Em sua 12ª edição, o Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém do Pará, traz este ano três montagens inéditas. De olho na celebração dos bicentenários de Verdi e Wagner, nas próximas semanas ganharão o palco belenense novas concepções de Il trovatore e O navio fantasma. Entretanto, para dar início a mais este ciclo lírico, a direção do festival – sob o comando de Gilberto Chaves e Mauro Wrona – apostou em um título leve e divertido, O elixir do amor, de Gaetano Donizetti.

Cheguei a Belém no último dia 9, dia posterior à estreia, quando os ânimos da equipe eram uma mistura de alívio para com a montagem que ganhava vida e um gostinho um tanto amargo por conta de um protesto organizado pelo Movimento Chega!, que aproveitando a notoriedade do evento, o utilizou como palco para uma série de ações contra a atual política cultural do Estado. Dentro dos ditames democráticos, não há problema algum nisso. Anos atrás, em Manaus, cheguei mesmo a presenciar uma manifestação em um espetáculo ao ar livre do Festival Amazonas de Ópera. Entretanto, me foram relatadas algumas ações extremas em Belém, como a interrupção de palestras e piquetes no Theatro da Paz, impedindo o acesso da equipe para a realização de um ensaio. Como diz o ditado, o direito de um termina quando começa o do outro, e esperamos então a história para julgarmos a legitimidade (ou não) do que se passou.


Cena de O elixir do amor no Festival de Ópera do Theatro da Paz [foto: divulgação]

Se no dia da estreia o “couro comeu”, na noite da segunda récita do Elixir, no dia 10, o clima estava bastante ameno, sem rastro algum da animosidade dos dias anteriores.

Sob a direção cênica do experiente Iacov Hillel, o Elixir de Belém foi uma montagem leve e despojada, bem afeita ao libreto de Felice Romani e à música que Donizetti conferiu a seu texto. O cenário – que explorou de forma abundante as laterais do palco – remonta com simplicidade e beleza a uma Itália bucólica e idealizada. A atmosfera de diversão foi ressaltada por uma movimentação bastante ágil, em especial do protagonista masculino.

No elenco vocal foram colocadas em evidência duas pratas da casa, isto é, o tenor Atalla Ayan (Nemorino) e a soprano Carmen Monarcha (Adina), paraenses que dividiram o palco com Homero Velho (Belcore), Saulo Javan (Dulcamara) e Ione Carvalho (Gianetta).


Cena de O elixir do amor no Festival de Ópera do Theatro da Paz [foto: divulgação]

Detentor de grandes atributos vocais e cênicos, Atalla Ayan mostrou-se mais do que à vontade com seu Nemorino, construído com precisão musical e naturalidade cênica, seja no contínuo buffo que lhe é incumbido, seja na “janela” dramática proporcionada pela famosa ária Una furtiva lagrima.

Por sua vez, Carmen Monarcha, detentora de lindo timbre vocal, em diversos momentos não se equalizou dinamicamente à potência de seus colegas de palco, embora sua Adina tenha sido cenicamente correta.

Mostram-se também bem confortáveis com seus respectivos personagens Homero Velho e Saulo Javan ao explorar ao limite os estereótipos que seus personagens trazem consigo, o que no contexto buffo só garante o sucesso da empreitada. Vocalmente a dupla também estava numa zona de conforto.


Cena de O elixir do amor no Festival de Ópera do Theatro da Paz [foto: divulgação]

Porém, quando digo que as pratas da casa garantiram uma boa montagem deste Elixir, não me referia apenas ao par romântico Ayan-Monarcha, mas também aos jovens músicos que integram a Orquestra Jovem Vale Música. Como o nome bem indica, trata-se de uma “orquestra jovem” e em princípio um grupo não profissional. Entretanto, o resultado saído do fosso superou bastante as expectativas que tinha sobre um grupo desta natureza, que na ocasião foi regido por Emiliano Patarra.

Responsável pela direção musical do Elixir, o maestro já havia regido recentemente este título na capital paulista. Desta forma, seu trabalho em Belém foi fruto de uma competência consolidada, imprimindo andamentos interessantes e garantindo um ótimo fluxo da teia narrativo-musical. Os problemas mais “sérios”, por assim dizer, se limitaram à sincronização do fosso com o Coral Lírico do festival, talvez por estarem concentrados demais em sua atuação cênica, à parte o belo trabalho de preparação musical realizado por Vanildo Monteiro.

Apesar dos incidentes não-musicais da estreia, Elixir é um primeiro passo certeiro para que o XII Festival de Ópera do Theatro da Paz confirme seu papel na cena lírica brasileira.

[Leonardo Martinelli viajou a Belém a convite do Festival de Ópera do Theatro da Paz]

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