Nos 70 anos de morte de Mário de Andrade, eventos e uma descoberta emocionante

por Camila Frésca 01/07/2015

Acredito que a maioria dos leitores da Revista e do Site CONCERTO já saibam da notícia que é, sem dúvida nenhuma, o acontecimento mais importante no ano em que se lembram os 70 anos de morte de Mário de Andrade: a descoberta da primeira gravação em áudio da voz do escritor e musicólogo. Num registro feito em 1940 no Rio de Janeiro, Mário de Andrade, Raquel de Queiroz e Mary Pedrosa cantam seis canções para o linguista norte-americano Lorenzo Turner.

Tudo começou quando Xavier Vatin, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, localizou em suas pesquisas de pós-doutorado na Universidade de Indiana o nome de Mário de Andrade como um dos entrevistados pelo linguista afro-americano Lorenzo Dow Turner (1890-1972). A partir daí, já no Brasil, os professores Carlos Sandroni (UFPE) e Flávia Toni (IEB-USP) cotejaram documentos e informações diversas para se certificarem de que era mesmo Mário de Andrade quem cantava e explicava cada uma das canções. Os registros chegaram em rotação 16% superior a correta, e a velocidade exata foi determinada a partir de outras gravações da voz de Rachel de Queiroz e de depoimentos sobre o timbre de voz de Mário.


Retrato de Mário de Andrade, então com 35 anos, realizado em 1928 [imagem: reprodução]

A face A do disco de alumínio, com 6 minutos de duração, traz cinco melodias: Aribu, que Raquel de Queiroz aprendera com um palhaço, no Ceará; Zunzum, com Mário de Andrade e Mary Pedrosa, peça do final do século XVIII, usada nas rodas de bebida que o musicólogo acreditava ser originária de Minas Gerais; Tava muito doentim, cantada por Raquel de Queiroz, colhida por Ascenso Ferreira e Mestre Rozendo, em Pernambuco; Deus lhe pague a santa esmola, cantiga de mendigos colhida por Mário de Andrade em Catolé do Rocha, no interior da Paraíba; e Toca zumba, cantada por Mário de Andrade, na verdade uma cantiga chamada O bilontra, composta por Gomes Cardim, de São Paulo, pouco após a abolição da escravidão. No lado B do disco, com três minutos de duração, Mary Pedrosa, Raquel de Queiroz e Mário de Andrade explicam o que gravaram, estimulados por Mário Pedrosa, que aparentemente coordena a sessão de trabalho, e Pedro Nava, que deixa escapar algumas observações. Finalmente, Raquel de Queiroz canta uma última melodia, Meu irmão me dê uma esmola.

A gravação só reafirma, em muitos sentidos, o que já se sabia sobre Mário de Andrade: um pesquisador dedicado e apaixonado, pioneiro na valorização e registro – já com uma abordagem musicológica – de nossa música, principalmente a tradicional. Para além disso, há o encanto e o espanto de ouvir pela primeira vez a voz de um personagem que é tão familiar para tantos leitores e pesquisadores brasileiros. Até então, Mário podia ser reconstruído através de diversas fotos e até pequenos trechos de imagens em movimento. Mas não por algo tão íntimo como a voz, que parece trazê-lo ainda mais perto de nós.

Afora esse verdadeiro “presente” colocado a partir de agora à disposição de todos pelo site do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, e que pode ser ouvido e baixado aqui, a efeméride dos 70 anos fez com que o musicólogo e escritor fosse o autor homenageado pela Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) em sua presente edição, que acontece de 1º a 5 de julho, e ensejou o lançamento o livro Eu sou trezentos: Mário de Andrade vida e obra, de Eduardo Jardim, pesquisador que há décadas se dedica ao modernismo brasileiro. Mário de Andrade é também a capa da edição de julho da Revista CONCERTO.

 


 

[Veja também]
Edição digital da Revista CONCERTO de julho (para assinantes)
Eu sou trezentos: Mário de Andrade – vida e obra, de Eduardo Jardim, na Loja CLÁSSICOS

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