Notas de um amor de câmara (Stravinsky & Chanel)

por Leonardo Martinelli 30/08/2010

Num filme que retrata o enlace amoroso de dois artistas de artes tão diferentes, a ênfase no jogo de olhares é o meio pelo qual aos poucos se cria uma tensão sexual e amorosa entre suas diferentes personagens. Em cartaz desde a última semana no circuito brasileiro, o filme Coco Chanel & Igor Stravinsky, finalizado em 2009 pelo diretor franco-holandês Jan Kounen, aborda o affair que o famoso compositor russo teve com este grande nome da moda contemporânea na Paris das décadas de 1910-20.

À época casado com sua primeira esposa, Catarina, o caso permaneceu em relativo segredo (ou no mínimo pouco alardeado) por décadas, tendo só recentemente vindo à tona a partir das pesquisas de Mary E. Davis e do romance Coco & Igor, que serve de base para o roteiro do filme, escrito em 2002 por Cris Greenhalgh, que também assina a adaptação para o cinema.


Imagem do filme Coco Chanel & Igor Stravinsky [Foto: divulgação]

Tanto o livro como o filme tomam como ponto de partida um dos momentos mais fundamentais da história da música moderna, isto é, a noite de 29 de maio de 1913, data da estreia do balé A sagração da primavera no Théâtre des Champs-Élysées, em Paris, onde a vertiginosa partitura de Stravinsky se uniu a ousada coreografia de Vaslav Nijinsky, num espetáculo idealizado pelo empresário Serguei Diaghilev, dono da companhia Ballets Russes, responsável pela encomenda de diversas outras obras primas da música moderna.

Para quem gosta de música clássica, os minutos iniciais de Coco Chanel & Igor Stravinsky são uma espécie de O resgate do soldado Ryan, filme dirigido por Steven Spielberg em cujos primeiros minutos há uma magistral sequência onde se recria com um excepcional realismo o desembarque das tropas aliadas nas praias da Normandia, ao longo do famigerado Dia D. Apesar de nem sempre se deter a alguns detalhes históricos fartamente relatados pela crônica da época, Kounen recria com eficiência e emoção o Dia D de Stravinsky e companhia, quando o balé foi recebido por uma tempestade de protestos, vaias e brigas. Foi supostamente neste dia em que se iniciou a relação entre Coco e Igor, sendo a famosa estilista ainda uma admiradora anônima do compositor.

Passado frenesi da sequência inicial, o que temos é um filme que mostra de forma muito delicada o gradual enlace amoroso entre Chanel (interpretada pela atriz francesa Anna Mouglalis) e a Stravinsky, a cargo do ator dinamarquês Mads Mikkelsen (mais conhecido como o vilão Le Chiffre de 007 - Casino Royale). Cada qual é detentor de um porte e jeito de ser austeros e elegantes, e que de repente se unem de forma bruta, numa narrativa que tem seus ecos no romance Thérèse Raquin, de Émile Zola. Está longe de ser um romance à la Hollywood (o que é bom), mas aqui e acolá fica a impressão que algo faltou no timing de Kounen, apesar da excelente atuação dos protagonistas.

Certamente a trilha sonora original composta Gabriel Yared (que já assinou a música de O paciente inglês, O Talentoso Mr. Ripley e Cold mountain) não ajuda o diretor Kounen nesta empreitada. Contrastando com a espetacular interpretação da Sagração da primevera com a Filarmônica de Berlim, sob a regência de Sir Simon Rattle, a trilha de Yared investe nos velhos e já tão saturados clichês de film score hollywoodianos. Tomando muitas vezes como ponto de partida pequenos fragmentos da obra de Stravinsky, trata-se de um bom exemplo de como boas idéias musicais podem se transformar em coisas insípidas. Por que não ter realizado uma trilha sonora a partir da própria obra de Stravinsky, tal como Woody Allen fez em Melinda & Melinda (2004), no qual usou o Arioso de seu Concerto em Ré como pivô da trilha sonora?

Num filme sobre uma grande estilista e um grande compositor, e que conta com um figurino deslumbrante e historicamente coerente, a grande ironia é uma trilha sonora original mequetrefe, sombra num argumento tão luminoso.

PS: A propósito da interpretação da Sagração com a Berlim e Rattle, este mesmo fonograma foi utilizado para o silent movie dirigido pelo alemão Oliver Hermann, Le Sacre du Printemps (2004), no qual a partitura de Stravinsky serve como único elemento sonoro (não há diálogos nem sonoplastia) para uma história de ficção altamente simbólica elaborada por Hermann. Imperdível!