O encantador universo de Guerra-Peixe nas mãos de Eliane Tokeshi e Guida Borghoff

por Camila Frésca 20/06/2012

Um lançamento recente e que não chamou ainda a devida atenção do público e da crítica especializada foi o CD “Guerra-Peixe: obras para violino e piano”. A violinista Eliane Tokeshi e a pianista Guida Borghoff realizaram um admirável trabalho de pesquisa da obra do compositor, deixando acessível a todos uma parte importante de sua produção.

Um dos grandes músicos brasileiros do século XX, Guerra-Peixe foi um artista de excepcionais dotes musicais e que conhecia como poucos tanto a linguagem da música erudita como a da música popular. De ascendência portuguesa e nascido em Petrópolis em 1914, Guerra-Peixe já tocava violão, violino e piano aos sete anos de idade. Mas o instrumento que estudou seriamente foi o violino. Guerra foi aluno de Paulina D’Ambrosio e formou-se no Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro, na década de 1930. Sua intimidade com os instrumentos de cordas fica patente na sua escrita para violino. Isso somado a seus estudos de música dodecafônica, suas pesquisas sobre o folclore brasileiro e sua experiência como arranjador e orquestrador dão o tom geral de sua obra, que se notabilizou por duas fases marcantes: uma dodecafônica e outra nacionalista.



César Guerra-Peixe [foto: divulgação]

Guerra já era um músico de sólido métier quando, aos 30 anos de idade, foi procurar Hans Joachim Koellreutter para se aperfeiçoar. Sua obra, que até então era influenciada pela música tradicional e urbana brasileira, segue novos rumos e envereda pela técnica dodecafônica. Entre 1944 e 49 ele escreve quase 50 peças dentro dessa linguagem, embora sempre com certa liberdade e procurando, por vezes, fundir a técnica dos doze sons com a música nacional.

Em 1949, Guerra-Peixe abandona definitivamente o dodecafonismo e abraça o nacionalismo. Segundo ele, a influência definitiva para essa tomada de posição foi a leitura dos textos de Mário de Andrade. Para a pesquisadora Ana Cláudia de Assis, essa mudança de orientação pode ser atribuída à insatisfação do compositor com o valor social de sua música dodecafônica, bem como à convivência com diferentes manifestações musicais nordestinas durante o período em que trabalhou na Rádio Nacional do Comércio de Recife, entre 1949 e 1952. Uma vez, em entrevista a Luiz Paulo Horta, Guerra-Peixe declarou: “depois do dodecafonismo eu fiquei um tempo imbuído de uns conceitos errôneos. Koellreutter dizia: quando uma música agrada, é porque alguma coisa não está no lugar. A música tinha que desagradar. A gente também compunha sem pensar no problema dos instrumentos; eu compus, o diabo que toque. Tenho músicas que não consigo tocar. Hoje penso diferente. A música pode ser difícil, mas tem de ser viável. E a comunicação foi um negócio que sempre me interessou.”

Pois essas duas fases tão distintas de sua produção podem ser conferidas no disco. Música, por exemplo, foi escrita para violino e piano em 1944 e pertence à fase dodecafônica. Já obras como A inúbia do cabocolinho ilustram bem seu envolvimento com a cultura popular brasileira. Guerra foi um pesquisador entusiasmado que saiu por diversas partes do país ouvindo e registrando melodias e ritmos. Para Luiz Paulo Horta, ele foi o nosso Bartók, o compositor que se debruçou seriamente sobre nossas tradições e a partir delas buscou estabelecer uma música de características nacionais. Originalmente escrita para orquestra, A inúbia foi transcrita para violino e piano para que o próprio compositor pudesse executá-la em apresentações como instrumentista. Vale ainda mencionar uma das obras mais importantes que Guerra-Peixe deixou para o violino e que igualmente marca presença: a Sonata nº 2. Escrita em 1978 e dividida em três movimentos, ela explora as possibilidades timbrísticas do violino e do piano e novamente traz influência da música nordestina, ainda que de forma mais sutil.

“Guerra-Peixe: obras para violino e piano” é um mergulho numa parte essencial da obra desse compositor (praticamente toda a sua produção dedicada à formação está presente no disco). Tenho certeza de que todos que se dispuserem a ouvi-lo vão se surpreender duplamente: com a qualidade da obra de Guerra-Peixe e com o excelente nível técnico e artístico da interpretação de Eliane Tokeshi e Guida Borghoff. Sem dúvida, uma contribuição enorme para nossa memória musical.

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