O tenor que não foi à Copa do Mundo

Se, no futebol, o Brasil é essencialmente exportador de talentos, na música clássica a coisa é mais equilibrada. OK, não temos condição de segurar craques do porte de Nelson Freire, Antonio Meneses e Paulo Szot. Mas, em compensação, atraímos de quando em vez uns gringos de contribuição duradoura a nosso cenário musical.

É o caso, por exemplo, de Dimos Goudaroulis. O violoncelista grego chegou por aqui em 1996 e, desde então, vem atuando com qualidade excepcional em todos os terrenos a que se dedicou: música popular, repertório contemporâneo (integra a recém-criada Camerata Aberta) e na música antiga com instrumentos de época.

Nessa área, Dimos acaba de realizar uma façanha de proporções internacionais: nada menos que a descoberta de um novo instrumento de cordas, o tal do “tenor perdido” que dá nome ao CD duplo que ele está lançando pelo selo Sesc.

Não se trata, portanto, de um daqueles tenores que ficam massacrando canções da Broadway com vibrato excessivo e sotaque macarrônico, em eventos ligados à Copa do Mundo. Estamos falando é do violoncelo piccolo de quatro cordas, o tenor perdido da família do violoncelo - a voz que falta entre a viola (mais aguda do que ele) e o violoncelo propriamente dito (mais grave).

Toda a odisséia do achamento do instrumento, meio largado no ateliê de um luthier, Dimos conta no erudito e apaixonado texto que acompanha o disco. A realização fonográfica propriamente dita traz criações de dois compositores italianos do século XVIII, hoje virtualmente esquecidos: Andrea Caporale (c.1700-1757) e Giuseppe Valentini (c.1680-1740), cujas partituras são defendidas pelo intérprete com brio, virtuosidade e entendimento.

Na empreitada, Dimos tem um parceiro - e que parceiro! O cravo de Nicolau de Figueiredo, que já tocou com todo mundo que vale a pena no cenário europeu de música antiga, e que gravou, pelo Selo Clássicos, um incandescente álbum de sonatas de Domenico Scarlatti (1685-1757).

Complementando O tenor perdido, Figueiredo, além de tabelar lindamente com Dimos nas obras de Caporale e Valentini, fez o primeiro registro mundial das transcrições para cravo solo que William Babell (1689?-1723) fez de trechos da ópera Rinaldo, de Georg Friedrich Händel (1685-1759). Guardadas as devidas proporções, essas peças, pelo caráter e dificuldade, podem ser consideradas ancestrais distantes das paráfrases de óperas com as quais Liszt se esbaldou no século XIX, e constituem um grande fecho para uma iniciativa discográfica corajosa e de alto nível.