O triste fim da Camerata Aberta

por João Marcos Coelho 12/05/2015

Depois de muita luta e uma trajetória espetacular, que colocou a música contemporânea na vida musical de São Paulo, a Camerata Aberta foi extinta há algumas semanas com pouco choro, reclamações pontuais... e nenhuma vela, aparentemente.


É impressionante como tudo que se refere à música do nosso tempo é tratado com descaso, desprezo, quando não com repulsa clara. Evidente. Nas cabecinhas dos políticos casualmente escalados para gerir a cultura oficial, valem só os números, muitos números. Quantas pessoas a Camerata atinge – esta pergunta, imagino, deve ter sido muitas vezes repetida para Paulo Zuben e outros dirigentes da Camerata.


Sempre que se utilizar o critério do volume de pessoas para medir a valia de uma forma artística, fiquem certos de que se embute oportunismo, má-fé, ignorância, sacanagem mesmo.



A agora extinta Camerata Aberta, ensemble de música nova ligada à Emesp [foto: Heloísa Bortz/divulgação]


De nada adiantou o fato de a Camerata reunir alguns dos mais talentosos e corajosos músicos brasileiros e realizar um trabalho de inédita importância na vida musical da cidade. Muitos, certamente muitos estudantes de música conheceram a produção do nosso tempo em execuções que foram verdadeiros pontos fora da curva por sua excelência. A curva na performance de música contemporânea, sabemos, é em geral medíocre. Porque se ensaia pouco, porque não se dá importância ao que se cria hoje – vários porquês que não valem a pena enumerar, tamanha a decepção de ver um projeto desses,  notável, desfazer-se sem que ninguém derrame lágrima alguma (exceto os músicos diretamente envolvidos no grupo, os dirigentes).


Os idiotas da objetividade numérica em arte esquecem que esta é a música que aponta para o futuro, que traduz em sons nossa realidade tão conturbada, tecida no passado com repressão e hoje com corrupção mesmo.


Desculpem o mau humor. Talvez tenha razão o ex-ministro da Cultura Gilderto Gil, que, no exercício do cargo, anos atrás, optou por não levar para o ano Brasil na França nenhum grupo ou músico nem obra alguma de compositores brasileiros contemporâneos. Preferiu Seu Jorge e as mulatas passistas de escolas de samba. Na época, atônitos, os próprios franceses trataram de bancar concertos com criações de brasileiros...


Assim caminha o pagode pátrio.


Uma pena. A história repete-se de modo infame e vexatório com a Camerata Aberta. Não há verba, dizem, para que os músicos da Camerata continuem dando aulas na Emesp. Vejam bem: eles precisam dar aulas para realizar o sonho de participar do único grupo permanente dedicado à música contemporânea, com o volume de ensaios necessários para mesclar obras-chaves o século XX com criações brasileiras e latino-americanas.


A Camerata junta-se a um punhado de outros projetos que sobreviveram por  alguns anos na história cultural brasileira. Ela provou seu valor, mas ninguém, na esfera oficial, parece de fato interessado em falar em cultura – quanto mais em música contemporânea. Melhor investir em viradas culturais na capital e no interior, despejando milhões de reais em milhares de eventos disparatados espremidos num fim de semana.


Dá mais mídia, atinge públicos maiores, argumentam os gurus do marketing político, sempre de olho nas próximas eleições. Não dá para conviver com tamanha desfaçatez...


Adeus, Camerata Aberta. Valeu a empreitada. Valeram os esforços. Valeu a luta encarniçada para mostrar de forma digna a música do nosso tempo. Com certeza, as sementes foram lançadas. Muitos estudantes de música abriram suas perspectivas, descobriram que há vida inteligente além do ilustríssimo cânone ocidental europeu branco dos séculos passados.


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