Ópera como esboço

por Leonardo Martinelli 27/10/2011

O paulistano – de nascença ou por opção – ama o Teatro São Pedro (TSP). Esta modesta, mas graciosa jóia cravada no tradicional bairro da Barra Funda desperta vívida simpatia dos amantes da ópera e da música de concerto da cidade. Como se esquecer dos concertos com a Osesp que ele abrigou antes da famosa orquestra ocupar a opulenta Sala São Paulo? Ou mesmo de algumas inspiradas produções operísticas (poucas, é verdade) que abrigou desde sua reforma e reinauguração, em 1998?

Propriedade do Estado de São Paulo, e atualmente administrado pela OS Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA), o TSP é um importante espaço cultural da capital. Mas está ele realmente cumprindo a contento o papel que em princípio lhe é atribuído, de ser o espaço da ópera do estado mais rico da federação?


Teatro São Pedro [foto: divulgação]

Foi isso que me passou pela cabeça nos entreatos da mais recente produção da casa, uma nova montagem de Il Guarany, a famosa ópera de Antonio Carlos Gomes e título principal da produção lírica brasileira, que contou com a direção musical de Roberto Duarte e direção cênica de João Malatian.

Esboços e croquis

Após a famigerada abertura orquestral – tadinha, tão covardemente malhada há décadas pelo jurássico A voz do Brasil – subiu o pano do TSP, e de repente, estava lá, escancarado, o inexorável destino que tende a orientar (ou assombrar?) o TSP. Ao invés de sólidas colunas ou pétreas paredes, o castelo de Don Antônio – onde se desenvolve o primeiro ato – era um amontoado de linhas que apenas sugeriam o ambiente cênico em questão, como se os esboços feitos em papel tivessem se agigantado no cenário. Particularmente, li isto como um exercício de metalinguagem: as limitações técnicas intrínsecas do TSP, além das já conhecidas limitações orçamentárias de suas temporadas (agravadas pelo notório arrocho imposto pela atual Secretaria de Estado da Cultura) não permitem o pleno exercício do espetáculo operístico, que desta forma, é desenvolvido como uma coleção de esboços.

Em tempo, inspirados e interessantes esboços – ora em preto sobre fundo branco para os atos na “civilização”, ora em branco sobre fundo preto para os atos na floresta – a partir do belo trabalho de cenografia realizado por Beto Mainieri, que mesmo marcado pelo despojamento mostrou-se ambiente amistoso para que João Malatian realizasse seu trabalho. Homem de ópera, Malatian tem claro em sua proposta os desafios que Il Guarany traz, e os supera de clara e assertiva, sem se perder em divagações ou pseudo-simbolismos. A luz de Fábio Retti foi especialmente eficiente nos atos sobre fundo preto, mas naqueles onde o branco imperou, foi monótono e cansativo. Mas o maior descompasso ocorreu mesmo com os figurinos de Angélica Chaves, que não estabeleceu nenhum tipo de diálogo com o trabalho de Mainieri ao optar pela linha “de época”. Até aí poder-se-ia aceitar a existência de discursos visuais paralelos, mas quando no terceiro ato o palco é tomado pelo coral trajado à la Pocahontas, fica claro que faltou sustança ao trabalho da figurinista.

Vozes da floresta

O despojamento visual, aliado a um trabalho cênico econômico e eficiente, botou em foco aquilo que, no mais, deveria mesmo ser o principal ponto de interesse de um espetáculo lírico desta natureza, isto é, a atuação de seus cantores. Em sua noite de estreia com o primeiro elenco, este Il Guarany reuniu um representativo time de cantores brasileiros. Detentores de vozes poderosas e bonitas, Edna d’Oliveira (Ceci) e Marcello Vannucci (Peri) tiveram ótimos momentos em suas árias e duetos, apesar de pontualmente o vibrato de Edna tornar-se um tanto exagerado e de Vannucci carecer de maior precisão em poucas, mas decisivas notas. Mas isto são observações um tanto rabugentas frente ao belo trabalho que a dupla desempenhou como um todo.

Inácio de Nonno (Gonzales) e Eduardo Janho-Abumrad (Don Antônio) também tiveram boas atuações e superam bem a difícil tarefa de estarem no palco praticamente em todos os momentos da ópera.  Veterano da cena lírica paulistana, Janho-Abumrad causou especial comoção por sua atuação no início do quarto ato. Outra notória atuação foi a de Lício Bruno (Cacique). O barítono costuma marcar presença quando entra no palco, e no Guarany não foi diferente. Como um todo, a estreia desta produção patinou no primeiro ato, e ganhou robustez especialmente a partir da terceira cena do segundo.

Quem, no entanto, ficou na promessa foi a Orquestra do Theatro São Pedro, sob a regência de Roberto Duarte, diretor musical do grupo. “Orquestra jovem” em duplo sentido – pois além de ter sido recentemente fundada ela é maciçamente integrada por jovens músicos e mesmo estudantes – Il Guarany mostrou-se um passo maior que suas pernas conseguem dar. Na famosa abertura os desencontros ficaram evidentes, aos quais se somaram uma deficiente precisão nos ataques e finalizações de fraseados. Ao longo da ópera o problema persistiu, e inconsistências de sonoridade e afinação foram especialmente sensíveis em certas passagens nas quais os naipes de violoncelos e de trompas ficam em evidência.

Projeto São Pedro

Voltando ao início deste texto, um pensamento particular – que, no entanto, já ouvi de diversos amigos, colegas ou mesmo desconhecidos – se cristaliza em minha mente: o Estado de São Paulo precisa investir mais em ópera. É fundamental que ele garanta o aporte de recursos conveniente ao “Projeto São Pedro”, de forma que se consolide em torno dele uma estrutura musical e de produção operística verdadeiramente profissional (por exemplo, até onde pude apurar, os músicos do coral ainda são contratados no aviltante esquema de cachê).

São Paulo tem público e dinheiro para manter uma casa de ópera que atue de forma paralela ao Teatro Municipal e tem, sobretudo, uma responsabilidade histórica e cultural. O que falta, infelizmente, é a famosa vontade política, que apenas esporadicamente inspira nosso secretariado. Afinal, é notório que não podemos exigir excelência artística sem antes propiciar estruturas verdadeiramente profissionais.