Operação resgate

por Leonardo Martinelli 11/06/2011

Após um longo e tenebroso inverno, no qual ficou fechado para reformas, eis que, finalmente, o Teatro Municipal de São Paulo (TMSP) abre novamente suas portas ao público. Na última sexta-feira, dia 10 de junho, ocorreu o concerto oficial de reinauguração (houve antes um concerto fechado, para fins políticos) da principal casa de ópera da capital paulista, na qual a Orquestra Sinfônica Municipal (OSM), sob a regência de seu titular Abel Rocha, recebeu no palco do teatro outros grupos e músicos cujas trajetórias se relacionam de forma estreita com o edifício neoclássico projetado por Ramos de Azevedo, e que em setembro deste ano comemorará 100 anos de existência.

Não é segredo para ninguém que nos últimos anos o TMSP e seus corpos estáveis passaram pela mais profunda crise de sua história, situação que, apesar por ora sob controle, ainda está longe de seu desenrolar final. Fruto de um histórico descaso da administração municipal em relação à cultura de uma maneira geral, foi simbólico constatar a ausência do prefeito Gilberto Kassab nesta ocasião tão importante, e mesmo o secretário municipal de cultura, Carlos Augusto Calil, desapareceu após o intervalo. Não houve cerimônia, não houve o ato simbólico de “devolver” o teatro aos seus cidadãos. Pelo visto os festejos de 80 anos de um ex-presidente da República, que ocorria a poucos quilômetros dali, na Sala São Paulo, ocuparam um lugar mais privilegiado na agenda de prioridades de nossos administradores munícipes. Così fan tutti, diria um libretista de ópera.

Em todo caso, eles não fizeram falta, e na ausência dos cartolas, a ocasião transformou-se numa festa de confraternização entre músicos e amantes de música, estes sim os verdadeiros jogadores que fazem a bola rolar nos gramados da música clássica brasileira.

Desta forma, se do lado institucional o simbolismo ganhou tristes contornos, do lado musical ele foi belamente assegurado pelo repertório escolhido para esta apresentação. Ao longo das breves falas a que se permitiu o maestro Abel Rocha (que, sinal dos tempos, também assina as notas de programa deste concerto) enfatizou a necessidade do TMSP resgatar sua identidade, e por isto, na ocasião alguns corpos estáveis da casa foram resgatados e convocados para tomar parte desta festa, tal como o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, que solou a frente da OSM com o Concerto para quarteto de cordas e orquestra, de Radamés Gnattali, e o Coral Lírico, que engrossou a massa sonora no Te Deum, de Anton Bruckner.

Porém, quando se fala de resgate de identidade de uma casa de ópera, é inevitável que a parte maior de seu simbolismo recaia nos solistas líricos, estrelas maior deste tipo de espetáculo que compareceram em peso à festa. Foi emocionante a salva de palmas que precedeu a apresentação de Serenade to music, de Vaughan-Williams, para a qual foi convocado um excelente time de solistas. Na escalação, teve-se Adélia Issa, Céline Imbert, Cláudia Riccitelli, Martha Herr e Laura de Souza nos sopranos, Denise de Freitas, Luciana Bueno e Regina Elena Mesquita como mezzo sopranos, Paulo Mandarino, Marcello Vannucci, Marcos Thadeu e Sérgio Weintraub nos tenores, Douglas Hahn e Luís Orefice como barítonos e Eduardo Janho-Abumrad e Carlos Eduardo Marcos nos baixos. À moda de um concerto ripieno, este dream team presenteou o público com pequenos solos previstos na partitura de Vaughan-Williams, deixando na boca um saudável gostinho de quero-mais.

A importância dos solistas líricos foi ainda enfatizada no Te Deum de Bruckner, que além do Coral Lírico, contou também com o quarteto vocal integrado por Rosana Lamosa, Silvia Tessuto, Geilson Santos e, novamente, Carlos Eduardo Marcos. Notória também foi a participação do spalla da OSM, Pablo de Léon.

O fecho de ouro deste resgate simbólico foi uma sensível homenagem realizada a nomes que fizeram parte da trajetória do TMSP – Diogo Pacheco, Walter Lourenção, Niza de Castro Tank e Neide Thomas, entre outros presentes – agraciados com um buquê de flores e uma vigorosa salva de palmas da platéia.

Se no campo do simbolismo e das homenagens tudo ocorreu de forma inspirada e a contento, musicalmente apenas confirmou-se o que, de certa forma, já era previsível. Isto é, após um longo período de virtual inatividade (decorrência da ingerência administrativa acentuada pela reforma do teatro), coro e orquestra iniciam agora uma longa e tortuosa escalada rumo a excelência artística.

Penso não ser o momento para maiores escrutínios, mas sim de constatação de que nos corpos estáveis do TMSP há uma concentração admirável de talentos individuais que, tal como jogadores de um time de futebol que iniciam um novo campeonato, precisam de condições de trabalho e tempo para se entrosarem a partir da coordenação de um bom treinador, missão esta para a qual o maestro Abel Rocha já demonstrou em situações anteriores ser uma pessoa em quem podemos depositar nossa confiança.

Só precisamos torcer para que os cartolas da música – novamente eles – não façam suas habituais lambanças com o decorrer do campeonato.