Opes mostra boa produção semiencenada de “O amor das três laranjas”, de Prokofiev

por Nelson Rubens Kunze 28/11/2011

A história é um tanto absurda: com a ajuda de Truffaldino, o Rei de Trèfles promove um festival de animações para fazer o Príncipe rir e assim curá-lo de sua depressão hipocondríaca. Nada dá certo, até que a bruxa Fata Morgana – que na verdade só está ali conspirando contra o Rei para que o Príncipe não ria – toma um tombo hilário, despertando finalmente o riso do príncipe (um ha-ha-ha-ha em ritmo de quinta sinfonia de Beethoven). Zangada, Morgana lança a maldição e o Príncipe se torna presa da paixão por três laranjas. A partir daí o surrealismo só cresce: junto com Truffaldino, o Príncipe parte em busca das três laranjas enfrentando diversos desafios – entre eles o de vencer a cozinheira (cantada por um baixo), que defende sua cozinha com uma enorme e temida colher de cobre. No fim, tudo se resolve, o Príncipe se junta à linda Princesa e os malvados – Morgana, sua criada Sméraldine e o primeiro ministro – acabam, num passe de mágica, desaparecendo do reino.

O próprio compositor Serguei Prokofiev (1891-1953) preparou o libretto de sua ópera O amor das três laranjas a partir de uma adaptação feita para o teatro pelo italiano Carlo Gozzi (em meados do século XVIII), por sua vez baseado em uma peça inspirada na commedia del’arte e escrita por Giambattista Basile no século anterior. A música, que contém uma famosa marcha no segundo ato, é envolvente e acompanha as situações de diversão e crítica com o mesmo espírito do enredo. A ópera estreou em 1921, em Chicago nos Estados Unidos, sob direção do próprio compositor.

Foi muito boa a realização artística de O amor das três laranjas apresentada ontem (27 de novembro), no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, pela Orquestra Petrobras Sinfônica (Opes), com direção musical e regência do maestro Isaac Karabtchevsky. A direção cênica de Alberto Renault, a coreografia de Marcia Milhazes e os figurinos e adereços de Isabela Capeto contribuíram para o convincente resultado, em que os cantores se movimentavam no proscênio com o Coro Sinfônico do Rio de Janeiro (direção de Julio Moretzsohn) na parte de trás da orquestra. O equilibrado elenco de 16 vozes solistas – escolhido em audições que proporcionaram importante oportunidade para jovens talentos – foi composto integralmente por brasileiros. Foi um prazer ver o ouvir o príncipe Marcos Paulo com seu travesseiro, o animado Sergio Weintraub como Truffaldino, o histrionismo de Pepes do Vale como cozinheira e as maldades de Fata Morgana (Gabriela Rossi) e sua criada Sméraldine (Luciana Costa e Silva). Mas seria injusto não citar os outros cantores, que em conjunto formaram um elenco bom e homogêneo: Luisa Francesconi (Princesa Clarisse), Carlos Eduardo Marcos (Rei), Homero Velho (primeiro ministro), Vinicius Atique (Pantelon), Leonardo Páscoa (mágico Tchelio), Carolina Faria, Carla Odorizzi e Lina Mendes (as três laranjas), Daniel Soren (Farfarello), Ivan Jorgensen Malta e Manuel Alvarez Abreu.

Essa é a terceira ópera que a Petrobras Sinfônica realiza dentro desse conceito – títulos raros em versões semiencenadas (nos anos anteriores fizeram O anão de Zemlinsky e O caso Makropulos de Janácek). É um diferencial que já marca o trabalho dessa orquestra. Em 2012 o projeto ainda ganha um destaque adicional, já que fará a estreia mundial da ópera Piedade, de João Guilherme Ripper, comissionada pela própria Opes.

Boas ideias que merecem divulgação e incentivo!

[Nelson Rubens Kunze viajou ao Rio de Janeiro e assistiu à O amor das três laranjas a convite da Opes.]