Orquestra e solistas brilham na “Salomé” do Theatro Municipal de SP

por Nelson Rubens Kunze 09/09/2014

Orquestra afiada, ótimos cantores e alta voltagem musical da direção do maestro John Neschling marcaram a estreia de Salomé, de Richard Strauss, nova produção do Theatro Municipal de São Paulo, no último sábado, dia 6 de setembro. Conduzindo o fluxo narrativo qual uma torrente – a ópera não tem “números” separados como árias, duos ou diálogos –, a orquestra assumiu com determinação a função protagonista que Strauss lhe atribui.

John Neschling não esconde sua identificação com a música do Romantismo tardio. Na Salomé, sem perder de vista o grande arco narrativo que se estende por toda a obra, o maestro logrou uma leitura concentrada e de intensa dramaticidade. A orquestra respondeu inspirada e exibiu virtuosismo raro. E se na parte orquestral houve algum porém, este foi o do excesso – em algumas passagens, especialmente na primeira metade do espetáculo, a exuberância orquestral encobriu até mesmo um elenco de espetaculares e potentes vozes.

Mas Salomé é uma obra de excessos: uma enorme orquestra, uma escrita que desafia constantemente os limites da tonalidade, um ritmo muitas vezes alucinado em consonância com um enredo que, para além do poder, do sexo, da sedução, do assassinato e da necrofilia, perscruta a complexidade da psique humana. Uma obra chave da modernidade, que há 100 anos corajosamente desafia tabus da nossa civilização.


Soprano alemã Nadja Michael (ao centro) como Salomé: domínio absoluto [foto: Desirée Furoni/divulgação]

Foi excelente o desempenho dos principais solistas. A soprano alemã Nadja Michael personificou uma intensa Salomé, com domínio absoluto – tanto vocal quanto cênico – do papel (Michael já fez Salomé nos principais teatros do mundo – há registros no YouTube). Jochanaan foi interpretado pelo baixo barítono norte-americano Mark Steven Doss, de possante voz e perfeita representação. Outro destaque vocal foi o tenor inglês Peter Bronder como Herodes, exibindo impressionante qualidade vocal e cênica. Boas atuações também tiveram a mezzo soprano Iris Vermillion, como Heriodíades, e o tenor francês Stanislas de Barbeyrac, que fez Narraboth. Participaram ainda desta estreia Lidia Schäffer (pajem); Paulo Chamié-Queiroz, Rubens Medina, Eduardo Trindade, Miguel Geraldi e Sérgio Righini (como judeus); Carlos Eduardo Marcos e Sérgio Weintraub (nazarenos); Saulo Javan, Paulo Menegon, Jessé Vieira e Elisabeth Ratzersdorf.

A concepção cênica de Livia Sabag, simples e despretensiosa, ficou aquém do brilhantismo orquestral e do virtuosismo vocal dos protagonistas. Livia decerto demonstra competência, a encenação é funcional e proporciona o suporte necessário para o desenrolar da trama – ponto alto da montagem é a bela abertura do deserto descobrindo um rico interior de vitrais coloridos, solução que quebrou a aridez cinza predominante. Porém, amparada por uma iluminação apenas convencional, a direção foi tímida na exploração interpretativa das múltiplas camadas simbólicas da obra.

Não perca a oportunidade de assistir Salomé, uma das principais óperas da história, marco da criação lírica da virada do século XIX para o século XX. O resultado musical da produção, em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo até o dia 20 de setembro, apresenta nível comparável aos tradicionais teatros europeus ou norte-americanos.

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