Orquestra Jovem e Cristian Budu em noite brilhante

por Camila Frésca 23/08/2016

No último domingo, 21 de agosto, a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo (Ojesp) fez mais um concerto de sua temporada 2016 – uma programação, aliás, muito bem cuidada em termos de repertório e convidados. Ainda assim, arrisco-me a dizer que este foi o ponto alto da temporada. Sob a batuta de seu maestro titular, Cláudio Cruz, a Ojesp enfrentou com galhardia duas obras referenciais do romantismo europeu: o Concerto para piano nº 1, de Tchaikovsky, e a Sinfonia fantástica, de Hector Berlioz.

 

Mesmo o mais relapso ouvinte de música de concerto é capaz de reconhecer trechos célebres da obra de Tchaikovsky. É provavelmente o concerto para piano mais tocado e gravado ainda hoje, além de ser obra tecnicamente e musicalmente bastante exigente. Assim, se de um lado é o tipo de peça que pode agradar facilmente o público, de outro gera comparações e até mesmo certo enfado a ouvidos mais exigentes.


Orquestra Jovem do Estado de São Paulo com Cristian Budu ao piano [Divulgação / Heloisa Bortz]

Mas certamente não foi tédio nem más comparações o que a interpretação provocou. O solista do Concerto de Tchaikovsky foi Cristian Budu. Jovem pianista brasileiro, cujo talento extraordinário foi reconhecido em 2013 por um dos mais importantes e prestigiados concursos do cenário internacional (o Clara Haskil, na Suíça), ele mais uma vez arrebatou a plateia. Cristian, além de ótimo pianista, é um artista carismático e que consegue sempre dar um toque pessoal a sua interpretação – mesmo numa peça tão executada como o concerto de Tchaikovsky. Não tenho dúvidas de que Cristian Budu tem potencial para, dentro de pouco tempo, tornar-se uma estrela internacional; e é uma pena que ele não esteja mais presente nas em nossas salas de concerto – inexplicável não tê-lo visto, até agora, na temporada da Osesp. Bastante afinados, solista e orquestra valorizaram o sinfonismo e a virtuosidade do Concerto nº 1, que se desenvolve em meio a um dinamismo intenso e uma generosa fluência lírica.

A segunda parte reservou um grande desafio à Orquestra Jovem: a Sinfonia fantástica, de Hector Berlioz, obra que marca o início do romantismo francês. Peça densa que, em seus 50 minutos de duração, procura narrar os tormentos de amor do jovem Berlioz em sua paixão pela atriz irlandesa Harriet Smithson. Pouco antes da estreia, o compositor publicou nos jornais um “programa” que detalhava o plano do drama instrumental em cinco movimentos – e assim dava início, também, à chamada “música programática”. Sob o ponto de vista musical, é igualmente um avanço em relação às grandes sinfonias que a antecederam.

Os cerca de 90 jovens, entre 13 e 25 anos, que formam a orquestra, fizeram bonito. Não apenas tocaram com garra e entusiasmo típicos da idade, mas igualmente demonstraram refinamento musical e entendimento da linguagem romântica. Todos os naipes se saíram bem e mostraram resultados nos momentos em foram solicitados, e a orquestra como um todo provou-se um conjunto bastante coeso. O mérito é de cada um deles, claro, mas é igualmente do maestro Cláudio Cruz, que desde 2012 vem fazendo um trabalho sério e dedicado com a orquestra, com resultados notáveis. A Ojesp hoje, a despeito de ser uma orquestra jovem, é uma das melhores sinfônicas brasileiras em atividade e pôde demonstrar toda sua capacidade nesse repertório romântico exigente tecnicamente e cativante musicalmente.

Também foi bacana ver a casa cheia e com um público bastante variado, que acompanhou com atenção toda a apresentação. Para aqueles que perderam ou não puderam comparecer, há um grande consolo: o repertório do concerto foi gravado e o disco será distribuído em 2017 aos assinantes da Revista CONCERTO.