OSB: um momento de reflexão

por Jocy De Oliveira 14/04/2011

Tenho acompanhado a fundo a crise pela qual passa a nossa querida OSB. Até agora havia decidido não me posicionar porque acredito firmemente que momentos críticos como este devam ser resolvidos pelos próprios protagonistas da cena, sem interferências de terceiros. Opiniões arrebatadas e impensadas de inúmeros e respeitáveis músicos, porém alheios ao conjunto, têm servido apenas para acirrar os ânimos e trazer a público informações parciais e muitas vezes errôneas. De nada adiantaram.

Acredito no posicionamento democrático de todos, contudo, antes de se formar opinião deve-se mergulhar no tema, pesquisar, conhecê-lo de todos os ângulos e só então trazer a público uma observação lúcida, pertinente e produtiva. Sem dúvida, uma opinião imparcial é sempre relevante, aquela que propõe uma reflexão, acrescenta uma observação esclarecedora, tem o poder de mediar, moderar. Mas isso não é o que tem acontecido.

Não nos cabe julgar ou apontar o certo e o errado, e sim solicitar um momento de reflexão para aqueles que, como nós, nasceram na música, fizeram dela seu ofício e vida: nós todos somos os perdedores! Perdem os músicos da OSB, maestro, instituição assim como todos aqueles que vivem da música, o ouvinte, a própria música.

Acompanhei a história desta orquestra desde meus 18 anos quando fui solista sob a regência de Eleazar de Carvalho tocando o Concerto nº 2 de Liszt e logo após casei-me com o maestro.

A OSB tocou no nosso casamento e foram inúmeras as primeiras audições que fiz com esta brava orquestra: Bartók, Stravinsky, Santoro, Messiaen. Alguns dos músicos ainda são parte do corpo orquestral daquela época e trazem consigo a memória viva deste tradicional conjunto.

Na época, vivenciei uma crise semelhante, porém sem nenhuma repercussão midiática. Foi quando, em 1968, estávamos em turnê na Europa durante as férias da orquestra, e o maestro Eleazar recebeu um telegrama lacônico demitindo-o. Os músicos, liderados por seu representante, haviam decidido sumariamente pela sua demissão e o conselho lavou as mãos. Da noite para o dia, ele ficou sem salário ou qualquer indenização. Passamos a depender de nossos módicos cachês em países pela Europa. Eleazar jurou nunca mais reger esta orquestra.

Anos mais tarde, quando meu filho Eleazar, de quem tenho muito a me orgulhar pelas suas qualidades de equilíbrio, competência e idealismo, decidiu assumir a presidência do conselho da OSB, sei que para ele tratava-se de algo pessoal e profundamente ligado a sua memória afetiva – conseguir elevar a orquestra a um patamar financeiro que lhe permitisse chegar a um nível de excelência que seu pai sonhara.

Cabe ao conselho e ao presidente prestar serviço voluntário e idealista à fundação gerenciando sua captação de recursos e administração dos mesmos, assim como apoiar a direção artística sem interferências.

Deixo algumas observações: parece-me que a mídia e o meio musical só ouviram até agora um lado da questão e esqueceram do principal, que é seguramente o desejo de executar boa música e o resultado de poder oferecer aos componentes da orquestra um alto piso salarial com um aumento de 50%, além de maior estabilidade e busca por um fundo de pensão.

A primeira carta proposta que foi enviada pela Fundação a todos os músicos nunca se referiu a demissões e isso já foi exposto inúmeras vezes comprovando que esta não era absolutamente a intenção! Caminhos acalorados e situações incitadas levaram a um desfecho infeliz de demissões que ainda se espera reverter encontrando o caminho do respeito mútuo e da dignidade.

Vamos deletar as trocas de farpas, críticas infundadas e precipitadas. Nós todos passamos, mas a orquestra deve perdurar e contar a história musical deste país.