Osesp lança primeiro CD com as sinfonias de Villa-Lobos

por Camila Frésca 08/10/2012

A Osesp acaba de lançar o primeiro disco de seu projeto de registro integral das sinfonias de Villa-Lobos. O CD "Villa-Lobos: Sinfonias n ºs 6 e 7" é o primeiro dos seis que serão lançados nos próximos anos, sob regência e supervisão de Isaac Karabtchevsky.

Villa-Lobos escreveu 12 sinfonias durante um arco de 40 anos que vai desde a sua primeira fase, na década de 1910, quando ainda tentava se firmar como compositor, até o final de sua carreira, quando já era um autor consagrado – a Sinfonia nº 12 foi escrita em Nova York em 1957, dois anos antes de sua morte. As cinco primeiras foram escritas entre 1916 e 1920, fase em que Villa-Lobos ainda era bastante influenciado pela estética da música francesa, e levam subtítulos: “O imprevisto” (Sinfonia nº 1), “Ascenção” (nº 2), “A guerra” (nº 3), “A vitória” (nº 4) e “A paz” (nº 5, nunca publicada e cujo manuscrito desapareceu).

Há uma lacuna de 24 anos entre a Sinfonia nº 5, escrita em 1920, e a de número seis, composta no Rio de Janeiro em 1944. E estes foram anos fundamentais no percurso de Villa-Lobos: é o período em que ele escreve o ciclo dos Choros e das Bachianas, faz duas viagens a Paris e desenvolve um inédito programa de educação musical por meio do canto orfeônico. Portanto, ao escrever sua Sinfonia nº 6, em 1944, Villa já é um autor maduro e consagrado, em pleno domínio de sua linguagem musical. Subintitulada “Sobre as linhas das montanhas do Brasil” a obra utiliza o processo de “milimetrização” inventado pelo compositor e que procura obter uma melodia a partir de uma imagem. Conforme explica Fabio Zanon no texto que acompanha o CD, “num papel quadriculado transparente, ele destinava as linhas verticais para as alturas e as horizontais para as durações; a transparência era sobreposta a uma foto, cujos pontos principais determinavam o contorno melódico”. Ainda segundo Zanon, aparentemente os vários temas da sinfonia foram extraídos de gráficos feitos a partir de fotos da Serra dos Órgãos, do Corcovado e do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

Tanto a Sinfonia nº 6 quanto a nº 7, de 1945, respeitam a estrutura tradicional da sinfonia clássico-romântica: são escritas em quatro movimentos, iniciam-se e terminam com um allegro, possuem um segundo movimento lento e um terceiro animado e mais curto que os demais. Contudo, são obras que guardam muito das idiossincrasias de Villa-Lobos e que por vezes fogem daquilo que seria esperado. Ainda segundo Zanon, a Sinfonia nº 7 era tida pelo compositor como uma de suas melhores obras – e, de fato, ela soa mais coesa que a anterior.


Isaac Karabtchevsky [foto: divulgação]

É quase redundante dizer que este é um projeto louvável e importantíssimo – e que tem tudo para virar um marco em nossa discografia e musicologia. As Sinfonias de Villa-Lobos são muito menos conhecidas do que os Choros, as Bachianas ou mesmo sua obra para piano e para violão. Não que elas nunca tivessem sido gravadas; uma ou outra havia recebido gravações por diferentes grupos e houve até um projeto de integral, feito pela Sinfônica da Rádio de Stuttgart para o selo alemão CPO. Mas agora, antes de ser gravada, cada uma das sinfonias recebe uma completa revisão musicológica pela Criadores do Brasil, a editora de partituras da Osesp. Uma das principais dificuldades para se interpretar a obra de Villa-Lobos reside nas partituras. Além de ainda existirem peças em manuscrito – o que faz com que sejam ignoradas por intérpretes e orquestras internacionais, que só tocam obras publicadas – muito do que foi editado apresenta uma quantidade enorme de erros. Há alguns anos, a Academia Brasileira de Música vem realizando um importante trabalho nesse sentido, revisando partituras editadas de Villa-Lobos, num projeto encabeçado pelo maestro Roberto Duarte. Agora, a Osesp dá uma contribuição significativa nesse processo, que resultará em melhor difusão, conhecimento e avaliação dessas sinfonias.

Resta ainda dizer que estamos diante de uma excelente interpretação, cuidadosa com os detalhes e registrada com ótima qualidade de gravação. O lançamento marca também a parceria da orquestra com o selo Naxos, gigante internacional da música clássica. E é mais uma aposta da Osesp para entrar de fato no circuito das grandes orquestras internacionais.

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