Paixão em primeiro lugar

por João Marcos Coelho 10/09/2009

“Você só toca bem a música pela qual está verdadeiramente apaixonado.” A frase singela é dita pelo pianista polonês Piotr Anderszewski no excepcional documentário realizado pelo dublê de violinista e cineasta Bruno Monsaingeon que acaba de ser lançado no mercado internacional pela Médici Arts em DVD.

De fato, assim como tudo na vida, a gente só faz bem aquilo que gosta. Já convivi bastante com músicos de orquestras brasileiras – e vocês nem podem imaginar como a maioria deles torce o nariz quando o maestro programa qualquer coisa além da música do século 19. Música serial ou do século 20, então, nem pensar. A hostilidade é geral e irrestrita.

Não só é possível, como certo, que a Osesp mudou um pouco esta mentalidade tão retrógrada. Em todo caso, é dolorido constatar que foi preciso chegarmos ao século 21 para colocarmos ao menos a primeira metade do século anterior na nossa programação sinfônica.

Voltando, porém, ao pianista polonês. Sua musicalidade é fantástica. Em boa parte do DVD, Monsaingeon – que se notabilizou como o grande documentador de Glenn Gould em uma série de vídeos hoje disponíveis em DVDs – capta Anderszewski numa viagem de trem pelo leste europeu. Ele ocupa um vagão transformado numa pequena casa, incluindo um estúdio de trabalho com um Steinway que parece ser de cauda inteira, modelo de concerto daqueles grandões.

Enquanto a paisagem característica do inverno polonês corre pela janela, o pianista fala de como Chopin é tudo em seu país: de estação ferroviária a cartazes nas ruas e música de todas as horas para os seus compatriotas. Toca um noturno e uma valsinha, e mostra como Chopin combina em sua música a genialidade com “o pior da música de variedade francesa”, diz rindo, e de repente constrói quatro compassos absolutamente geniais (repete várias vezes a sequência e confessa que poderia tocá-la durante horas, dias...). Monsaingeon lhe sugere a quarta balada com obra-chave do compositor polonês, mas Anderszewski, com quem concordo, contrapõe a bela, maravilhosa terceira balada – e executa de modo encantador o início.

Mas, na hora de revelar quais foram as suas primeiras e mais marcantes influências, ele não titubeia. Começa com Bach e toca uma de suas partitas numa velocidade delirante (mas não estamos diante de um show de pirotecnia, e sim de alta sensibilidade musical); depois fala do concerto para violino de Beethoven enquanto toca uma redução de modo comovente. Mas o que nos deixa perplexos mesmo é a sua paixão por Mozart – e o Mozart da Flauta Mágica. Ele toca a ária inteirinha de Papageno, ora cantarolando, ora apontando sacadas geniais de Mozart, um compositor particularmente amado no leste europeu, sobretudo em Praga, desde que estreou seu Don Giovanni lá.

Uma das maiores qualidades de Bruno Monsaingeon é saber colocar o entrevistado à vontade. A ponto de fazê-lo esquecer que está sendo filmado. A sequência do Papageno é formidável. Assim como outra onde ensaia solando e regendo um dos primeiros concertos para piano de Beethoven com a Orquestra de Câmara de Bremen. Em seguida, trechos de um ensaio iluminado do primeiro de Brahms com a Philharmonia inglesa regida por Gustavo Dudamel.

Amor, paixão pelo que faz – este é o primeiro sentimento que passa Anderszewski. Procure um CD duplo recém-lançado pela Virgin Records que registra seu antológico recital de estreia no Carnegie Hall, que começa com uma partita de Bach, passa por Schumann e Janácek, concluindo com uma leitura eletrizante da sonata opus 110 de Beethoven.

Qual a razão do tremendo êxito de Anderszewski, de um Gustavo Dudamel? Ou dos documentários do francês Bruno Monsaingeon? Eles gostam, amam o que fazem. Paixão, portanto, é sempre o primeiro e mais importante impulsionador de uma carreira bem-sucedida. Em termos de mercado, mas primeiro, e sobretudo, em termos pessoais, claro. Afinal, de nada adianta ganhar caminhões de dinheiro e prestígio se você está pessoalmente infeliz com o que faz. Pense nisso.