Para ouvir o clarinete de Montanha

Com o dólar em cotação estratosférica, o melômano que resolver insistir na prática anacrônica de adquirir CDs ver-se-á forçado a voltar seu olhar para o mercado nacional. E, caso acompanhe a Revista CONCERTO com atenção, já terá notado que, nos últimos anos, artistas brasileiros têm gravado discos de repertório interessante, em produções profissionais e muito bem cuidadas, que documentam para o futuro o trabalho de nomes que não apenas estabelecem nossos paradigmas atuais de excelência, como ainda estão moldando os talentos de amanhã.

É o caso, por exemplo, de Quintetos para clarinete e cordas, que une Luis Afonso Montanha e o Ensemble SP. A anedota é bem conhecida (e, como sempre acontece com esse tipo de narrativa, pode sofrer algumas variações): durante um ensaio com a orquestra de bolsistas do Festival de Inverno de Campos do Jordão (na época em que o festival efetivamente acontecia em Campos do Jordão), o maestro Eleazar de Carvalho ralha com um jovem músico que não estaria obedecendo a seu claro e preciso gestual. A resposta do instrumentista, apontando para um colega de elevada estatura, fez-se ouvir com dificuldade por detrás do naipe de clarinetes: “Maestro, mas como eu poderia ver o senhor com essa montanha na minha frente?”

Como fazem os melhores jogadores de futebol, Montanha imediatamente incorporou o apelido a seu nome artístico, e se tornou sinônimo de clarinete no Brasil. Liderou seu naipe na Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo por mais de duas décadas, leciona na USP e se destacou especialmente no repertório dos séculos XX e XXI.

Seus parceiros no disco não são menos qualificados. Ensemble SP é a grife com a qual se apresentam fora do âmbito do Theatro Municipal de São Paulo os quatro instrumentistas que posaram para a foto de capa da Revista CONCERTO de junho de 2015: Betina Stegmann (violino), Nelson Rios (violino), Marcelo Jaffé (viola) e Robert Suetholz (violoncelo), tocando juntos desde 2002.


Montanha, e o Ensemble SP, formado por Jaffé, Stegmann, Rios e Suetholz [foto: divulgação]

Música de câmara é o domínio privilegiado da maturidade, e só podemos agradecer que nomes tão experientes na área tenham resolvido registrar um dos mais refinados compositores nesse domínio, o alemão Johannes Brahms (1833-1897). Datado de 1891, o Quinteto para clarinete, op. 115 é uma criação madura de um músico que jamais parece ter sido pueril (não por acaso, Schumann já definia o Brahms de 20 anos como Minerva brotando completamente armada da cabeça de Cronos) e, aqui, recebe uma leitura lírica e espaçada.

Só por essa obra, o disco já seria agradável de ouvir. Porém Montanha resolveu fazer uma ponte entre o mundo germânico do século XIX e o Brasil atual, encomendando a compositores de hoje duas obras para a mesma formação.

Além de colega de Montanha no quinteto de clarinetes Sujeito a Guincho, Luca Raele foi um ídolo da muito distante adolescência deste articulista que vos fala – que seguia sua banda Nouvelle Cuisine com o mesmo entusiasmo que seus coetâneos dedicavam a Paralamas do Sucesso ou Legião Urbana. Pois bem: Raele apresenta a eclética Chuva e depois, combinando, de forma imaginativa e não imediatamente reconhecível, materiais empregados por Brahms em sua peça.

E, para fechar o disco, a finesse de Aylton Escobar, que parte de reminiscências do movimento lento da obra de Brahms para estruturar um discurso sonoro fragmentado, emoldurado por sua declamação do poema Nur ein lyrischer Moment (“Apenas um momento lírico”), de Rainer Maria Rilke (1875-1926), que dá nome à obra. Escobar lê Rilke no original alemão, com o mesmo tipo de entrega emocional que os instrumentistas demonstram ao longo do disco, incorporando uma inesperada voz – a sua, falada – a um fazer camerístico inteligente e estimulante.


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