Passado, presente e futuro na ópera brasileira

por João Luiz Sampaio 13/06/2014

A última semana de maio trouxe duas boas notícias para a ópera brasileira. Na temporada anunciada para o ano que vem do Theatro Municipal, foi incluída uma nova produção de Um homem só, de Camargo Guarnieri; e, no Festival Amazonas, em Manaus, subiu ao palco Onheama, ópera de João Guilherme Ripper encomendada especificamente pela décima oitava edição do evento.

 

Um homem só foi estreada no início dos anos 1960 no Theatro Municipal do Rio e logo esquecida. O libreto é do ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri e foi definido por Marion Verhaalen, em sua biografia do compositor, como um “tenso estudo psicológico sobre um homem solitário em luta com seu mundo”. É uma das obras menos conhecidas de Guarnieri e, na temática, segue em caminho totalmente diferente daquele proposto em Pedro Malasarte, que, com libreto de Mário de Andrade, é um dos símbolos do movimento nacionalista.

Onheama, por sua vez, parte de um poema do amazonense Max Carphentier para revisitar a mitologia indígena. A estrutura da obra confirma a carpintaria teatral de Ripper, também autor do libreto, e sua capacidade de, com texto e música, estabelecer um eficiente arco narrativo. Especialmente significativo me pareceu o fato de que a produção envolveu artistas – instrumentistas e cantores – em sua maioria formados em Manaus, o que é testemunho dos frutos dados pelo evento nos últimos anos, como bem colocou Nelson Kunze em sua crítica publicada também aqui no Site CONCERTO.


Camargo Guarnieri e João Guilherme Ripper: dois momentos da ópera brasileira [fotos: divulgação]

Mas o que pode haver em comum entre uma ópera sobre o ambiente urbano dos anos 1960 e outra criada em torno da mitologia amazônica? Entre as obras em si, pouca coisa. Mas, em um momento em que a ópera brasileira passa por transformações – a implementação de um novo projeto no Municipal, a vinda de Luiz Fernando Malheiro para o Theatro São Pedro e, de modo mais amplo, o reconhecimento da necessidade da profissionalização da produção e de novas formas de contato com o público – elas tocam, ainda que involuntariamente, em alguns temas importantes. O mais importante deles: a necessidade de se investir não apenas na produção mas também na criação.

Não é exagero dizer que a história da ópera no Brasil é, acima de tudo, a história da reinterpretação do repertório tradicional. Ela, claro, é desejável e atesta a permanência de alguns títulos e compositores. Mas o descaso com a criação contemporânea e com o que foi feito no gênero ao longo do último século no Brasil faz com que a ópera se distancie da vida contemporânea. Afinal, uma obra do passado pode iluminar o presente – mas o vai fazer de acordo com limites formais propostos por valores, padrões e referências estéticas de uma época que não é a nossa. E, no momento em que abrimos mão da experimentação da forma – e o modo como ela se articula com novos significados, questões e propostas artísticas de nosso tempo –, equiparamos a ida ao teatro de ópera a uma visita a um museu.

No caso brasileiro, em que memória rima com esquecimento, é desejável que o nascimento de novas obras esteja associado à redescoberta de títulos de autores como Alberto Nepomuceno, Assis Pacheco, Leopoldo Miguez, Francisco Mignone ou Henrique Oswald, ainda à espera de resgate. Afinal, não custa lembrar uma das lições primordiais do processo histórico: conhecer o passado pode ajudar na compreensão do presente – e na construção de um futuro.

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