Pelléas: Debussy de alto nível em um Municipal vazio

O bom das efemérides é que elas nos dão o pretexto para ouvir compositores que talvez fossem ignorados de outra forma. Nada mais legal, portanto, do que o Teatro Municipal aproveitar os 150 anos de nascimento de Debussy para promover a estreia de fato no palco da casa de sua obra-prima operística, Pelléas et Mélisande (houve uma récita única em 96, no Salão Nobre do teatro, com orquestra de câmara).

Fui à segunda récita de Pelléas, na última segunda-feira, dia 17, e a única coisa que não me agradou foi ver a casa tão despojada de público. Não apenas a chance rara de ver esse título, mas a própria qualidade musical e cênica do espetáculo mereciam ser desfrutadas por um número maior de pessoas.

Estreada em 1902, e adaptada da peça homônima de Maurice Maeterlinck, Pelléas é quase uma “anti-ópera”, de discurso musical e cênico elusivo, na qual o não dito e o sugerido costumam ter mais peso do que o dito.


Cena de Pelléas et Mélisande no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação / Yuri Pinheiro]

Para um conto de fadas simbolista, Iacov Hillel optou por uma encenação leve e minimalista. Cenários e figurinos despojados e abstratos, projeções de obras de Monet e palco giratório (uma novidade utilizada de modo efetivo e parcimonioso) foram os recursos que transportaram a plateia para um universo onírico e desterritorializado.

Musicalmente, a maior surpresa foi a Orquestra Sinfônica Municipal. Depois dos trancos e barrancos de Götterdämmerung, e do flerte com a vergonha alheia na gala lírica de Fabio Armiliato e Daniela Dessì, a sinfônica atingiu possivelmente seu melhor rendimento sob a batuta de Abel Rocha.

Rocha, por sinal, já havia feito Pelléas em Belo Horizonte, em 2008, e aqui, novamente, mostrou-se  um sensível pintor da sutil paleta de cores de Debussy.


Cena de Pelléas et Mélisande no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação / Yuri Pinheiro]

Ele repetiu no Municipal a dupla de protagonistas de quatro anos atrás, Fernando Portari e Rosana Lamosa e, como havia acontecido no Palácio das Artes, o casal se adonou completamente de seus papéis, com caracterizações plenamente consistentes tanto do ponto de vista cênico, quanto do vocal.

O maior destaque do elenco, contudo, foi o barítono francês Vincent Le Texier, um Golaud de classe internacional, que construiu um crescente arco de intensidade ao longo da récita para chegar ao final como o mestre absoluto do palco. Texier mostrou vocalidade robusta e vigorosa e domínio cênico completo, e deu uma aula de estilo, bom gosto e manejo do idioma.

Vale ainda ressaltar a solidez de Savio Sperandio (Arkel) e, especialmente, a contralto curitibana Kismara Pessatti (Geneviève), mais um talento moldado pela saudosa Neyde Thomas.


Cena de Pelléas et Mélisande no Teatro Municipal de São Paulo [foto: divulgação / Yuri Pinheiro]

Radicada em Zurique há 15 anos, Pessatti acabou de cantar El Amor Brujo, de Manuel de Falla, no Concertgebouw de Amsterdã - sala para a qual volta em dezembro, sob a batuta de Helmuth Rilling. Em novembro, solta a voz na Philharmonie (a fantástica sede da Filarmônica), em Berlim, nas versões em concerto das óperas O Ouro do Reno e A Valquíria, que fazem parte da elogiada série de gravações integrais das óperas de Wagner que o maestro Marek Janowski está fazendo para o selo Pentatone.

Seu papel em Pelléas é relativamente pequeno, mas já deu para mostrar o volume da voz e a qualidade impressionante dos graves. No final de outubro, de qualquer forma, teremos uma chance de apreciá-la melhor: Pessatti será protagonista da montagem de Orfeo ed Euridice, de Gluck, que, com regência do especialista em século XVIII Nicolau de Figueiredo, e direção de Antônio Araújo (do Teatro da Vertigem), deve inaugurar a Praça das Artes. Tomara que não apenas repita a excelência de Pelléas, mas que também consiga atrair mais público do que a obra-prima de Debussy.