A pérola Perlman

por Camila Frésca 25/11/2010

A temporada 2010 da Sociedade de Cultura Artística encerrou-se na última terça-feira, dia 23, com um concerto que estaria dentre os mais concorridos em qualquer parte do mundo onde acontecesse: um recital do violinista Itzhak Perlman, acompanhado pelo pianista Rohan De Silva. Como era de se esperar, nos três dias em que se apresentou em São Paulo (no Brasil, ele também tocou em Paulínia e no Rio de Janeiro) a Sala São Paulo esteve completamente lotada.

Perlman é considerado não apenas o maior violinista de nosso tempo como também um dos maiores músicos surgidos na segunda metade do século XX. Se toda essa importância pode sugerir um artista vaidoso de sua condição e seus muitos feitos – que incluem 15 Grammys e variadas honrarias com as quais é frequentemente distinguido –, o que se vê no palco é um músico absolutamente seguro e um homem espantosamente “comum”. Perlman agradece os aplausos, sorri e comenta o programa, tocando com a naturalidade de quem parece ignorar que está num palco diante de milhares de pessoas.


Itzhak Perlman [Foto: divulgação / Akira Kinoshita]

Nos dias 22 e 23, o programa do recital se iniciou com a Sonata para violino e piano KV 454 de Mozart. Se de um lado foi executada com perfeição de cristal, de outro a obra já deixou transparecer uma característica muito especial desse artista: o aspecto “humano” ou pessoal dado à interpretação. Talvez Perlman seja, entre os violinistas, o último representante de uma geração cuja personalidade fica patente em cada uma das obras que toca. Mitos do instrumento como Jascha Heifetz, Yehudi Menuhin ou Zino Francescatti podiam facilmente ser identificados a partir de uma audição, dadas as características particulares de cada um. Hoje, a preocupação obsessiva com a perfeição técnica faz com que, no estúdio, tudo seja ajustado e corrigido nos mínimos detalhes, perdendo-se determinada cor ou particularidade que poderia advir justamente de uma dita “imperfeição”; e, no palco, os músicos parecem estar preocupados sobretudo em atingir este falso ideal. Com Perlman o que se vê, antes de tudo, é a exuberante e rica personalidade musical.

A peça seguinte, a Sonata para violino e piano op. 18, de Richard Strauss, foi provavelmente a menos interessante. Sua curiosa estética romântica justifica-se por ser obra de um jovem Strauss ainda em busca de sua personalidade musical. A terceira peça e última sonata do programa foi a Sonata para violino e piano em sol menor de Debussy, obra especialíssima, escrita na maturidade do compositor e na qual Perlman e seu parceiro Rohan De Silva deram ao público um dos momentos mais impactantes da noite.

A partir daí, Itzhak Perlman passou a anunciar as obras que faria – e que escolhia na hora. A natureza delas alterou-se da complexidade da forma sonata (e do consagrado gênero de mesmo nome) para peças curtas e virtuosísticas cujo interesse maior está justamente na habilidade do intérprete. Aqui, sim, a perícia técnica é o que mais chama atenção. Não por acaso, as peças escolhidas foram transcrições de obras conhecidas do repertório feitas por violinistas célebres: Fritz Kreisler e Jascha Heifetz. Solícito, Perlman atendeu aos pedidos de bis do público e encerrou a noite com uma versão eletrizante de La ronde des lutins (em inglês, como ele anunciou, Dance of the goblins), peça altamente virtuosística do violinista e compositor italiano Antonio Bazzini (1818-1897). Já tendo interpretado a obra um sem-número de vezes (Clique aqui para assistir a uma dessas interpretações de Perlman) ele demonstrou mais uma vez aquela incrível naturalidade – deixando evidente, acima de tudo, sua tranquilidade e alegria em estar tocando violino naquele momento.