Petrobras Sinfônica apresenta ópera “O anão” de Zemlinsky

por Nelson Rubens Kunze 23/12/2009

Alexander von Zemlinsky é um compositor pouco conhecido. Nascido em Viena, viveu de 1871 a 1942, tendo convivido com grandes nomes da história da música, que de certa forma acabaram eclipsando a sua própria produção. Hoje, Zemlinsky acaba sendo mais lembrado como professor de Schoenberg (de quem depois tornou-se cunhado – Schoenberg casou-se com sua irmã, Mathilde) ou pelo fato de ter tido um grande amor não retribuído pela bela Alma Schindler (que mais tarde viria a se casar com Gustav Mahler, depois com o arquiteto do movimento “Bauhaus” Walter Gropius, e depois ainda com o poeta Franz Werfel).

Entre os anos de 1919 e 1921, Zemlinsky escreveu uma ópera inspirada no conto O aniversário da infanta, de Oscar Wilde. Intitulada Der Zwerg (O anão), a ópera narra a história da festa de aniversário da infanta espanhola Dona Clara, que recebe um Anão de presente. Não consciente de sua deformidade – pois nunca havia visto a sua imagem refletida –, o Anão se apaixona pela infanta, que, contudo, o repudia. Ao ver-se no espelho e tomar conhecimento de sua condição, o Anão sofre um choque e morre. A ópera e seu enredo cabem bem no momento histórico das primeiras décadas do século XX. A escrita musical lembra Richard Strauss, um contínuo musical de grande intensidade dramática, cujo ponto culminante é o momento em que o Anão toma consciência de sua condição, e a impossibilidade de viver com essa realidade.

Dirigida pelo maestro Isaac Karabtchevsky, foi excelente o desempenho da Orquestra Petrobras Sinfônica na recriação semi-encenada dessa obra – pelo que se tem notícia, pela primeira vez apresentada na América do Sul. Funcionou muito bem a ideia de colocar o coro sinfônico (ótimo, preparado por Júlio Moretzsohn), entre as fileiras da plateia. Assim, ganhou-se um pouco mais de espaço na parte dianteira do palco (relativamente pequeno) da Sala Cecília Meireles, onde André-Heller Lopes, o diretor cênico, criou uma pequena mas eficiente encenação.

Foi muito bom também o resultado vocal do equilibrado elenco. O destaque coube ao Anão do tenor Marcos Paulo, com uma bonita voz e convincente interpretação. A infanta foi feita pela soprano russa Marina Shevchenko. Participaram ainda Flavia Fernandes, Douglas Hahn, Priscila Duarte, Maíra Lautert e Carolina Faria.

Ouvindo a Petrobras Sinfônico fazendo ópera, lamentei novamente a decisão da Osesp em cortar os títulos líricos que vinha apresentando anualmente desde a sua reestruturação. Essas iniciativas cumprem dupla função: primeiro, oferecendo ópera a um público carente desses espetáculos; segundo, proporcionando uma vivência enriquecedora para a orquestra, que assim certamente ganha uma nova perspectiva para a interpretação do repertório sinfônico.

[Leia mais sobre Alexander von Zemlinsky na seção Vidas musicais da edição de dezembro da Revista CONCERTO, em texto de Lauro Machado Coelho.]

[Nelson Rubens Kunze viajou e assistiu a O anão a convite da Orquestra Petrobras Sinfônica.]