Pierre Boulez, o incansável

por João Marcos Coelho 19/07/2010

É inacreditável, mas verdadeiro: a entrevista mais atual e desafiadora deste ano foi concedida por um senhor de 85 anos a um repórter do jornal espanhol El Pais, em junho passado, e em seguida parcialmente reproduzida pelo Estadão. O compositor Pierre Boulez continua indomável, provocador, inteligente – enfim, uma figura tão importante hoje quanto foi na segunda metade do século passado, ao lado de outros criadores hoje mortos, como Luciano Berio, Karlheinz Stockhausen, György Ligeti e Luigi Nono.

Como Willy Correa de Oliveira pediu dois anos atrás, também Boulez desafia a atual geração de compositores e músicos a “matá-lo” para se afirmar. De seu lado, Boulez “matou” Arnold Schoenberg, Alban Berg, Anton Webern e Igor Stravinsky quando estava  na chamada flor da idade, entre os 25 e 35 anos; e em seguida enterrou seu professor parisiense, Olivier Messiaen. Descartou John Cage pela precariedade de conhecimentos musicais técnicos, embora apreciasse sua inventividade; e repete hoje que o serialismo foi apenas um túnel em direção a uma nova paisagem: a da liberdade absoluta, que precisa ser desfrutada hoje em dia.

Pierre Boulez [Foto: divulgação / reprodução site www.elpais.com]

Por isso, afasta-se de intérpretes e/ou compositores quando sente neles o menor sinal de covardia em exercer sua liberdade sem limites. “O problema é que eles têm medo de não agradar ao público. Mas eles devem primeiramente agradar a si mesmos. Depois é que poderão convencer os que os ouvem, senão estarão perdendo tempo. Nunca tive medo disso. Quando pensava que era preciso fazer alguma coisa, eu a fazia.”
Isso e muito mais está na entrevista notável realizada por Jésus Ruiz Mantilla para o El Pais. (Clique aqui para ler a entrevista na íntegra.)

Há duas semanas, um jovem compositor queixava-se comigo de que sua geração – ele está beirando os 30 anos – é muito acomodada. Olha à sua volta e constata que nenhum de seus pares tem um milésimo da energia e poder de provocação de um Pierre Boulez (ele tinha acabado de ler o trecho da entrevista).

E o pior é que isso é rigorosamente verdadeiro. Um outro intérprete muito admirado por Boulez, o pianista Pierre-Laurent Aimard, também escreve, num livro recentíssimo, que é surpreendente que os criadores musicais que “façam” ainda hoje a nossa cabeça sejam os mesmo que já eram decisivos “no século passado”.

Quem sabe não seja bom divulgar ao máximo esta entrevista de Boulez na íntegra. Todo criador musical, com mais ou menos de 30 anos, deve conhecê-la. Termino com mais um trechinho da entrevista, quando o autor de Pli selon Pli diz que “não trabalhamos apenas para o público. Em primeiro lugar, somos nós que devemos ouvir o que fazemos”. Mas o público é importante, diz Mantilla. “Bom, é importante, mas no sentido de que deve ouvir uma mensagem. Uma mensagem que não jogamos contra o espelho, mas que deve ser ouvida”. Em que medida o público aceitou estas suas propostas tão radicais? Resposta: “Há sempre uma adaptação. O que o público aceita agora não era aceito há 50 anos. Há peças que hoje são um sucesso quando são tocadas, e que na época não eram entendidas”.

Ele comanda, neste verão europeu, a Academia do Festival de Lucerna. Dará aulas, ensaiará a orquestra. Tem o DNA do guerreiro, do lutador que jamais esmorece. Vejam só como este homem de 85 anos pensa a missão do compositor: “O verdadeiro desafio está em inventar novas formas para cada peça criada, superar as que existem. Há um desafio também para quem escuta, ao defrontar-se com esta nova forma pela primeira vez. Na segunda, na terceira vez, a apreciará mais. É sempre preciso orientar as pessoas, é claro”.

Para um criador tão cerebral, pergunta Mantilla, “onde está o prazer na música radical?”. Resposta: “O prazer existe”. Mas vocês não o buscavam. “Bom, não o buscávamos. Não estava nos meus parâmetros. Outra coisa é gostarmos ou não do resultado. Eu gosto da explosão da violência, da desordem, da dureza, embora não seja possível qualificá-la, não haja palavras para descrevê-la. Se entram as palavras, o ilustramos, e isto não me interessa”.