Que educação musical?

por Leonardo Martinelli 25/08/2008

O governo acaba de aprovar a lei da obrigatoriedade do ensino musical no país. Mas será que apenas uma canetada resolve a questão?
É evidente que o ensino amplo e democrático é uma excelente idéia, e desde a Grécia da Antigüidade se confere à educação musical um fator relevante na formação do cidadão (tanto Platão como Aristóteles abordam a questão na "República" e na "Política", respectivamente).
Se por um lado o simples acesso à música que a tal lei pode propiciar é algo em si importante e animador, pelo outro é preocupante o como este acesso será realizado, e principalmente, quem irá fazê-lo.
A lei foi aprovada com o veto presidencial no artigo que exigia a formação musical para aqueles que optarem por lecionar esta disciplina. Qualquer um que conviva cotidianamente com a música entenderá que nem sempre "formação" musical significa "qualificação": não é raro encontrarmos talentos quase sobrenaturais totalmente desprovidos de diploma, bem como pessoas supertituladas sem uma real proficiência musical.
Entretanto, quando se trata de uma empreitada desta envergadura - isto é, iniciar o processo de alfabetização musical de um país de proporções continentais - uma qualificação formal mínima é mais do que bem-vinda, é sim fundamental.
Nos últimos anos tem crescido de forma expressiva o número de cursos de licenciatura em música, antes aprisionados como mera especialização em cursos de educação artística. Ao mesmo tempo diversos trabalhos, pesquisas e congressos dedicados à musicalização tem sido realizados por nossos educadores, que tem na Abem (Associação Brasileira de Educação Musical) um sólido ponto de referência pedagógica e institucional.
De certa forma, o veto presidencial foi uma facada nas costas em um projeto coletivo empreendido há anos por estes educadores.
Apesar de em um primeiro momento o "amadorismo músico-pedagógico" que o tal veto pode acarretar mostrar-se o principal problema do início desta empreitada, muitos outros já surgem num horizonte não muito distante, tais como a infra-estrutura pedagógica (instrumentos musicais, lousas de música, equipamentos, etc.), metodologias e métodos.
Se o Brasil é um país musical por natureza, o grande desafio de nossos futuros educadores será como formalizar seu ensino numa sociedade na qual a educação como um todo passa bem longe das prioridades do Estado (e, de certa forma, do próprio povo) e a arte é freqüentemente entendida como um "capricho supérfluo", e não por sua real importância, isto é, como algo essencial à vida.
Boa sorte a todos nós!