Rachmaninov de Nelson Freire triunfa em São Petersburgo

Com Valery Gergiev não se brinca. O tsar musical de todas as Rússias desejava uma atração internacional de grande peso para o 13º Festival de Páscoa de Moscou – um ambicioso evento de três semanas que abarca diversas cidades, cobrindo toda a extensão do país, de Kaliningrado a Vladivostok. E, como não podia aceitar nada menos que o excelente, escolheu Nelson Freire.


Valery Gergiev e Nelson Freire na Sala de Concertos do Mariinski [fotos: Revista CONCERTO]

Pianista e regente ainda não gravaram juntos, mas vêm mantendo uma relação musical das mais calorosas. Freire só não se apresentou na inauguração do Mariinski 2, no 60º aniversário de Gergiev, em maio do ano passado, por problemas de saúde. E vai comemorar seus 70 anos, em outubro, em uma turnê com o regente russo, no Japão.

Não pude ir a Moscou para ver a apresentação da dupla, no primeiro dia do festival, no Domingo de Páscoa. Coube-me assistir à prévia, na Sala de Concertos do Mariinski, no Sábado de Aleluia (que os russos chamam de Grande Sábado), em um festival pianístico que incluiu nomes conhecidos do público brasileiro, como Denis Matsúev, Andrea Lucchesini, Anna Vinnítskaya e Yuliana Avdêieva, além de uma maratona com Alexei Volódin tocando todos os concertos de Beethoven em uma mesma noite.

Com 1200 lugares, a Sala de Concertos foi construída em 2006, no lugar em que ficava o antigo depósito de cenários e figurinos do Mariinski, destruído por um incêndio, em 2003. Tanto do lado de fora, quanto do de dentro, ela parece acanhada com relação à nossa Sala São Paulo. A funcionalidade, porém, é extrema, oferecendo excelência de conforto, visibilidade e, especialmente, acústica a cada um dos espectadores presentes.

Na Rússia, a Páscoa suplanta o Natal como festa religiosa mais importante. O astral da primavera inunda as ruas do país, cobertas de ovos coloridos (que não são de chocolate). Em São Petersburgo, não escurece antes das 21h, e os ingressos para a apresentação de Gergiev e Freire se esgotaram rapidamente.

Se eu já não conhecesse o método de trabalho do regente, teria ficado apreensivo. Afinal, às 19h40 (20 minutos antes do início da apresentação), era possível ouvir, do lado de fora da sala, a orquestra ensaiando com o solista.

Como é de praxe nos concertos de Gergiev, houve atraso de meia hora. E o programa não era nada simples. Freire tocaria o Concerto nº 4 de Rachmaninov, em uma apresentação aberta por Les offrandes oubliées, de Messiaen, e concluída pela Sinfonia nº 3, Poema divino, de Scriábin.

Gergiev conduziu as duas partituras orquestrais de inspiração místico-religiosa com profundo entendimento estilístico. Em Les offrandes oubliées, criação da juventude (1930) de Messiaen (1908-1992), o regente revelou-se um mestre da linha e da transparência, enquanto, ao longo dos mais de 50 minutos de discurso musical contínuo do Poema divino, submergiu a sala no luxuriante mundo sonoro de Scriábin.

Os solos da Orquestra do Mariinski são de virtuosidade espantosa e musicalidade refinada, e a regência de Gergiev nos conduziu por um mundo de evocações da natureza e contrastes abruptos de extremos de dinâmica e textura que nos fazem lembrar o tempo todo de que Scriábin era contemporâneo de poetas como Aleksandr Blok e Andrei Biéli, figuras-chave daquela que ficou conhecida como a Era de Prata da poesia russa.

Rachmaninov (1873-1943) era apenas um ano mais jovem do que Scriábin (1872-1915), e Nelson Freire, na Sala São Paulo, em 8 de abril, no deslumbrante recital que abriu a temporada internacional da Sociedade de Cultura Artística, já descortinara sua ligação com o simbolismo da Era de Prata, ao investigar o colorido e os planos sonoros do Prelúdio em si menor, op. 32, nº 10, inspirado no quadro Die Heimkehr (A volta para casa), do pintor simbolista suíço Arnold Böcklin (1827-1901).

Em São Petersburgo, seu desafio era interpretar o “patinho feio” dentre as obras para piano e orquestra de Rachmaninov: o Concerto nº 4, composto em 1926 e sucessivamente revisado em 1928 e 1941. Nelson Freire já havia tocado a obra com a Osesp em 2006, nos tempos de John Neschling, e um sinal de o quão desconhecida ela é mesmo dos russos é o fato de que o cultivado público do Mariinski acabou prorrompendo em aplausos ao final do primeiro movimento.

O concerto possui as doses elevadas de felicidade melódica e carga nostálgica que fizeram o sucesso das outras criações de Rachmaninov no gênero. A diferença reside em seu caráter menos direto e mais elusivo, conferindo-lhe uma “modernidade” que o aproxima das outras obras do programa.

Concentrado, motivado e energizado, Nelson Freire demonstrou óbvia familiaridade com o idioma musical do compositor, desincumbindo-se com aparente facilidade da rítmica complexa e das escalas ultra-virtuosísticas do primeiro e terceiro movimentos, e colocando em relevância as qualidades líricas e oníricas do movimento lento. Nessa tarefa, foi assistido por um Gergiev igualmente atento e extremamente respeitoso, com o qual possui uma química evidente. Nem o celular que sapecou a Marcha do Toreador, da Carmen, de Bizet, durante o largo, foi capaz de quebrar o clima de encanto surgido no palco.

Depois de uma torrente de aplausos, Nelson Freire enterneceu a sala com seu bis mais tradicional e pessoal, a Melodia de Orfeu e Eurídice, de Gluck/Sgambati. E deixou a impressão de que, para penetrar nos mistérios da alma russa, nada melhor do que um coração bem brasileiro.

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