Reflexões sobre a crise da OSB: Bom mesmo no Brasil é o Carnaval!

por Nelson Rubens Kunze 20/07/2011

Vamos começar pelo começo: é preciso decidir se queremos ou não uma grande orquestra sinfônica de qualidade internacional no Rio de Janeiro. Não é possível que um objetivo natural e desejado por todos (vide esforços por todo o Brasil) seja visto como um capricho de um grupo alienado e autoritário. Não, não é! Se há uma forma de contribuirmos, dentro de nossa área, com o desenvolvimento do Brasil, então é almejando padrões cada vez mais altos de comprometimento artístico e qualidade – isso, para nós, é a tal da “responsabilidade social”! Queremos, sim, uma orquestra sinfônica de qualidade internacional para o Rio de Janeiro, uma orquestra pujante e moderna, geradora de cultura, propondo visões para um mundo em conflito, com instigantes programas semanais, comprometida com a cultura e a inserção social, dialogando com a contemporaneidade, aberta ao mundo, com a cara do Rio de Janeiro e do Brasil do século XXI. E esse é o DNA da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), que nasceu cosmopolita e já viveu glórias que transcendiam em muito os limites da Baía da Guanabara...

Mas, como vemos, não é fácil, e a crise da OSB escancara nossas deficiências. Sempre acreditamos que os entraves ao nosso desenvolvimento cultural eram a dependência de secretarias de Cultura e de governos despreparados e pouco esclarecidos sobre assuntos musicais. Descobrimos que não são só esses. Sozinhos também não damos conta do recado. E agora, com a OSB, percebemos que, mesmo após o acentuado desenvolvimento institucional e artístico dos anos Minczuk, ainda faltavam alguns requisitos básicos para dar o salto rumo à grande e moderna orquestra sinfônica.

Talvez uma falha determinante tenha sido a falta de um verdadeiro gestor cultural, um profissional de visão estratégica, conhecedor da área, competente nos assuntos administrativos e preparado para lidar com artistas. Aquela peça chave de vital importância na estrutura administrativa de uma orquestra sinfônica. Julgo altamente elogiável o compromisso e o engajamento do presidente do Conselho da Fosb, Eleazar de Carvalho Filho, na crise da OSB; mas, antes dele, quem deveria conduzir o processo e responder por acertos e erros seria justamente o gestor cultural, um diretor executivo de plenos poderes.

Agora, pressionada, a Fosb recuou (ainda sem gestor cultural), o maestro Roberto Minczuk pediu demissão e uma nova diretoria artística compartilhada foi contratada. Se a saída de Minczuk pode significar um gesto concreto de reconciliação com a comunidade musical carioca, a contratação desta diretoria artística compartilhada não parece, objetivamente, ser um substituto à altura do currículo internacional do maestro demissionário. Fica a dúvida se Fernando Bicudo (um nome que não está ligado ao universo da música sinfônica) e Pablo Castellar (jovem produtor, professor e compositor) são de fato os melhores indicados para a função. (Apenas a título de comparação, lembro que quando a Osesp demitiu o maestro John Neschling, a direção artística da orquestra foi temporariamente compartilhada por Timothy Walker, diretor artístico e executivo da Filarmônica de Londres, por Henry Fogel, ex-diretor da Sinfônica de Chicago e ex-diretor da Liga de Orquestras Americanas, e por Marcelo Lopes, diretor executivo da Osesp.)

As recentes notícias indicam que o projeto de criação de uma sinfônica de qualidade internacional para o Rio de Janeiro sofreu um revés. Com essa “nova velha” OSB que se desenha, talvez tenhamos de volta Nelson Freire, Cristina Ortiz e Antonio Meneses (que, como sabemos, trabalham na Europa e nos Estados Unidos com orquestras de qualidade). E eles também ficarão contentes, pois terão de volta esse ambiente caloroso e informal que caracteriza a vida musical brasileira. E, no fim, poderemos compartilhar juntos e lamentar, que pena!, que o Brasil não muda, que a corrupção, que as traquinagens dos políticos, que a Cidade da Música, que os escândalos federais... Mas temos aquele consolo de sempre: bom mesmo no Brasil é o Carnaval (e o futebol – quando não dá vexame nos pênaltis contra o Paraguai...)!