Reivindicação nacionalista é um equívoco

por Nelson Rubens Kunze 06/07/2013

Circula na internet um “manifesto pelo artista nacional” com um abaixo-assinado que defende uma reserva de mercado para artistas brasileiros. Além de seu objetivo de restringir o trabalho de estrangeiros no país, o manifesto desfere ataques à nova gestão do Theatro Municipal de São Paulo e ao maestro John Neschling [clique aqui para ler a notícia]. Talvez o apelo bem intencionado do título do documento tenha sido uma das razões de a petição já ter obtido a adesão de quase mil pessoas – afinal, todos desejamos o melhor para nossos artistas...  

Peço desculpas por discordar, mas acredito que o manifesto é um equívoco. Não vejo o artista “nacional” sendo alijado das temporadas líricas. Basta um rápido retrospecto aqui mesmo em São Paulo (mas pode ser em Manaus, BH ou Rio): as duas óperas apresentadas no mês passado, uma do próprio Theatro Municipal (The Rake´s Progress) e outra do Theatro São Pedro (The Turn of the Screw) foram majoritariamente (pelo menos 90%) realizadas por artistas brasileiros.

Também creio necessário não perder de vista a nossa conjuntura lírica atual, pois, me parece, faz muito tempo que não temos tantos cantores “nacionais” cantando quanto nos dias de hoje. O Brasil experimenta, talvez, a mais importante movimentação na área dos últimos anos, já que, como se sabe, a única iniciativa lírica perene na última geração foi a do Festival Amazonas de Ópera (que este ano produziu a sua 17ª edição consecutiva – os seus organizadores poderão dar testemunho do esforço que isso significa).

E o que vemos no país hoje? No Norte, após alguns anos de interrupção, ressurge com renovado impulso o Festival de Ópera do Theatro da Paz (Belém), neste ano em sua 12ª edição, com três títulos programados para o segundo semestre. Em Belo Horizonte, o Palácio das Artes tem logrado manter a produção de dois ou três títulos por ano. No Rio de Janeiro, uma nova direção encabeçada pelo maestro Isaac Karabtchevsky ao menos promete reverter o lamentável histórico de improvisos que se viu nos últimos anos naquele que é o mais tradicional palco brasileiro (já cumpriu com a Aida e tudo indica que cumprirá com A Valquíria). Em São Paulo, após anos de equívocos, o Theatro São Pedro leva a cabo uma segunda temporada lírica com títulos adequados e um bom nível de realização. E, finalmente, o Theatro Municipal de São Paulo, após uma espetacular temporada de 11 títulos no ano passado (Grande Prêmio CONCERTO 2012), enfrenta agora o desafio de consolidar uma estrutura de um verdadeiro e moderno teatro de ópera, com uma série de assinaturas para seis produções no segundo semestre.

Há falhas, erros, injustiças? Talvez. Mas creio que também tem havido um bom espaço para o debate das divergências, tanto nos veículos impressos tradicionais como nas novas plataformas eletrônicas. Assim, quando o Teatro Municipal contrata artistas estrangeiros de má qualidade, a crítica e a comunidade lírica apontam e cobram, como ocorreu no Rigoletto do ano passado (conforme bem lembra também o próprio manifesto). Da mesma forma, festejamos quando há descobertas, como a do ótimo trabalho do maestro italiano Steven Mercurio na última produção do Theatro São Pedro, sem dúvida uma valiosa contribuição para um novo patamar artístico daquela orquestra.

Ações discriminatórias já são por si lamentáveis, ainda mais em um país de imigrantes. Uma defesa estreita do artista “nacional” em uma metrópole cosmopolita como São Paulo (vale também para o Rio de Janeiro), além de lamentável, reverbera provincianismo e xenofobia. O momento é, sim, de difundir a importância da cultura lírica e de conscientizar as autoridades públicas para o fortalecimento das temporadas existentes e para a criação de muitas outras pelo Brasil.

A cidade de São Paulo merece um teatro lírico moderno, pujante e de qualidade. Nesses primeiros seis meses de gestão, o maestro John Neschling, sua equipe e a Prefeitura de São Paulo já deram provas concretas de que estão comprometidos com este ideal. Mãos à obra!