Salomão Habib recupera o legado de Tó Teixeira

por Camila Frésca 28/11/2013

O Brasil é grande, uma imensidão. E o caminho de uma produção regional em direção a um centro econômico é muito mais longo do que o caminho inverso. Devido a estes dois motivos, quase perco a oportunidade de conhecer um trabalho incrível. Felizmente, a pesquisadora e jornalista paraense radicada em São Paulo, Rose Silveira, trouxe na mala uma encomenda especialíssima em sua última expedição a seu estado natal: o pacote com o resultado do Projeto Tó Teixeira, desenvolvido há mais de duas décadas e lançado no início do ano por Salomão Habib.

 

Violonista e pesquisador bastante respeitado em ambas as áreas, em 1989 Habib se deparou com uma partitura escrita à mão que havia sido retirada de um pequeno incêndio doméstico. Era uma peça para violão do músico Antonio Teixeira do Nascimento Filho, conhecido por Tó Teixeira. Do encontro imprevisto nascia uma paixão e um objeto de estudo que, após mais de duas décadas de trabalho, resultou num projeto que reúne livro, partituras, gravações em CD e um documentário em DVD.


Pacote do projeto, que é embrulhado em papel rústico [fotos: Rose Silveira/divulgação]

Filho de um ferreiro que era também flautista, Tó Teixeira, descendente de escravos, nasceu em 1893 em Belém do Pará. Criou-se num bairro de negros chamado Umarizal e lá ganhou intimidade com a música por meio de festas populares. Aprendeu violão e aos doze anos passou a ter contato com a teoria musical. Menino pobre, Tó era aprendiz de encadernador (mais tarde viria a ter sua própria oficina) e trabalhando com os livros pôde ter uma formação cultural autodidata. Na música contou, além dos conhecimentos de seu pai, com os de um vizinho e, mais tarde, do violonista Aluísio Santos. Tornou-se um dos mais festejados violonistas de sua época e professor de música de abastadas famílias de Belém. Ao longo de seus 89 anos de vida (morreu em 1982), compôs mais de 300 peças entre valsas, sambas, sonatas, choros, polcas, ladainhas e canções nomeadas com originalidade como Caranguejo refogado com azeite doce ou Padeiro sem camisa – que não deixam de revelar algo de seu dia a dia e do meio em que vivia.

O primeiro a reparar em Tó Teixeira foi o incansável Vicente Salles (1931-2013) que, na década de 1970, produziu o primeiro registro fonográfico do artista, o compacto Lá vem o tio Tó. “Tó Teixeira abriu para mim o conhecimento sobre a cultura do negro no Pará depois da Abolição”, Salles costumava dizer a Rose Silveira – que aliás, finaliza um doutorado sobre parte do legado deste grande pesquisador. Obstinado, Salomão Habib seguiu os passos de Vicente Salles e foi além, passando a recolher, completar e catalogar as peças, muitas das quais em estado precário já que, com poucos recursos, Tó Teixeira costumava escrever suas peças em papel de pão ou “de embrulho”.

A dedicação e o cuidado resultaram num projeto (patrocinado pelo Sesc) que merece ampla divulgação e que, sem sombra de dúvidas, é um dos mais importantes lançados em 2013 no que diz respeito à memória musical brasileira. Nos três CDs, estão registradas algumas peças da ampla produção de Tó, cobrindo um arco que vai de 1900 a 1980! Já o livro Tó Teixeira – o poeta do violão recupera em detalhes vida e obra de Tó, ao mesmo tempo em que é um panorama do violão e de boa parte da vida musical de Belém na primeira metade do século XX. Conforme explica Salomão Habib, muitas peças foram compostas com objetivo didático, para ensinar aos alunos, já que os métodos clássicos do instrumento não eram fáceis de se encontrar na cidade. Uma parte dessas peças está no livro de partituras que faz parte do projeto. “Algumas peças foram ‘restauradas’ para que soassem mais harmonicamente, uma vez que Tó em muitos casos escrevia somente a melodia da música, ficando a cargo do intérprete e seu instrumento, a harmonização”, explica Habib. Finalmente, o DVD ilustra parte dessa rica trajetória em imagens.

E, como se não bastasse todo o cuidado com o conteúdo, o capricho se estende para a apresentação do material: Salomão Habib decidiu embrulhar tudo num papel rústico, em referência aos papeis que Tó Teixeira usava para escrever suas peças.

[Texto revisto às 8h30 do dia 29/11/2013]

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