São Paulo, seus povos e suas músicas

por Camila Frésca 22/02/2011

Com a conclusão das obras de reforma, a Biblioteca Municipal Mário de Andrade tem recebido desde o final de janeiro um público que lota seu auditório todos os sábados à tarde. Eles têm prestigiado o projeto “São Paulo: seus povos e suas músicas”, série com entrada franca que discute a imigração em São Paulo por meio de mesas redondas e apresentações musicais. A cada evento, uma comunidade de imigrantes é enfocada – primeiro no discurso dos especialistas e em seguida num concerto. A curadora desses concertos é Anna Maria Kieffer, cantora, pesquisadora e artista que, além de criativa, possui uma ampla e rara bagagem cultural. Anna sente-se muito à vontade com o tema, já que em 2004 realizou o belo CD duplo Cancioneiro da imigração (projeto do qual tive o privilégio de participar como sua assistente), que retratou a prática musical entre comunidades de imigrantes presentes na cidade de São Paulo. Para o projeto da Mário de Andrade, contudo, Anna dá um passo além. “Se no Cancioneiro a ideia era registrar o que as comunidades de imigrantes guardavam de mais tradicional, uma espécie de ‘memória do navio’, neste segundo projeto ressaltamos também seu histórico de integração à cidade e a outras comunidades”, explica.


Concerto da comunidade japonesa, com Danilo Tomic, shakuhachi; Kaiami Satomi, violoncelo; e Camilo Carrara, violão. [Foto: divulgação/Eulália Moreno] 

Assim, a cada sábado, a partir das 16h, inicia-se um debate com dois participantes sobre temas relativos a cada comunidade. Segue-se então a apresentação musical, que já mostrou a música dos árabes, italianos, russos e japoneses radicados em São Paulo. O curioso, no entanto, é que é praticamente impossível encontrar uma comunidade “fechada”, na qual japoneses e seus descendentes, por exemplo, não se misturem com nordestinos, húngaros e outras etnias as mais improváveis: ou seja, um exemplo típico da miscigenação característica do Brasil e que pode ser amplamente observada nessa gigantesca metrópole que é São Paulo.

Até maio, ainda haverá encontros dedicados às comunidades germânica, húngara, andina, judaica, espanhola, polonesa, portuguesa, coreana e africana. Mas, aos interessados, atenção: os debates e concertos, ambos com entrada franca, têm estado de fato concorridíssimos, e é aconselhável chegar com no mínimo uma hora de antecedência para não ter de voltar para trás. “Os concertos estão lotados e temos tido um retorno muito grande. As pessoas vêm falar comigo, os músicos recebem convites para se apresentar em outros lugares”, conta Anna. “Temos pensado inclusive em dar continuidade à iniciativa, pois só foi possível abordar 13 grupos, quando sabemos que existem muitos outros com representatividade na cidade.” E completa: “Como disse [a compositora e etnomusicóloga] Kilza Setti, essa integração das comunidades de imigrantes com a cidade de São Paulo já havia sido detectada pelo próprio Mário de Andrade. Ela continua existindo e hoje está ainda mais sedimentada; portanto, tem muito sentido realizar a série justamente na biblioteca que leva o nome de Mário.”