Silvio Barbato, popular e erudito

Foi uma coincidência, sim, e das mais estranhas e perturbadoras: recebi um disco de Silvio Barbato exatamente no mesmo dia em que choviam e-mails, SMS e telefonemas confirmando sua presença no voo 447 da Air France.

Conheci o maestro em 96, quando Heloisa Fischer me convidou ao Rio para entrevistá-lo, na casa de John Neschling, para a extinta revista VivaMúsica!, sobre sua revisão da ópera “Il Guarany”, de Carlos Gomes. Naquela época, Neschling e ele andavam bem próximos, e Barbato chegou a reger a nova Osesp algumas vezes, levando as pouco executadas partituras orquestrais de seu ex-professor, Claudio Santoro, a serem tocadas pela sinfônica ainda no tempo em que ela estava longe de badalação, e se submetia à terrível acústica do Memorial da América Latina.

Reencontramo-nos ainda em ocasiões pontuais, como na vez em que fui membro do júri, presidido por ele, do I Concurso Internacional de Canto Bidu Sayão, em Belém, em 2000, ou na Mimo, em Olinda, em setembro do ano passado. Foram encontros prazerosos: com 50 anos de idade, Barbato era mineiro, mas parecia encarnar o estereótipo do carioca bon vivant e gozador, sempre com uma piada na ponta da língua.

Eu não saberia descrever direito quais eram os sentimentos que me dominavam, ainda sob o impacto das confusas notícias sobre o malfadado voo, ao abrir a caixa de três discos da recém-recebida Série Pixinguinha para ouvir Pixinguinha Sinfônico, no qual ele rege a Orquestra Petrobras Sinfônica em valsas e canções do maior gênio da música popular brasileira, incluindo a orquestração original de “Carinhoso”.

O que sei é que, ao ouvir o disco, o sentimento era de deleite. Há que ser paulista de um bairrismo atroz para não reconhecer o alto nível que, do outro lado da Via Dutra, atingiu a Petrobras Sinfônica. O álbum é enriquecido por solistas do quilate de Hamilton de Holanda (bandolim), Paulo Sérgio Santos (clarineta) e Toninho Ferragutti (acordeão), e Pixinguinha nele brilha como um orquestrador de uma verve e um domínio do métier que nada deixam a dever ao que faria mais tarde o grande Radamés Gnattali.

Lembrei-me, então, de outro disco de Barbato (do selo italiano Bongiovanni), que comprara importado, há alguns meses, a peso de ouro. Trata-se dessa curiosa grand-opéra em miniatura que é o oratório “Colombo”, de Carlos Gomes, tendo o barítono romeno Alexandru Agache no papel-título. Barbato dirigiu orquestra e coro do Teatro Massimo “Bellini”, de Catania, em uma realização bastante convincente da partitura.

Do Silvio Barbato compositor não tenho como dizer nada, pois não conheci sua ópera O Cientista, sobre Oswaldo Cruz, que andou percorrendo o Brasil. Quanto ao regente, esses dois lançamentos recentes mostram alguém não apenas versátil, como dedicado à música brasileira. Não me parece que haja muitos outros com tais credenciais, hoje, por aqui. Sua falta vai se fazer sentir.