Sinfonia em preto-e-branco

por Leonardo Martinelli 15/02/2012

Em plena era do cinema 3D, não deixa de surpreender o sucesso que o filme O Artista está fazendo, pois além de uma excelente audiência mundo afora, esta produção francesa concorre a nada menos que 10 prêmios do Oscar deste ano.

Ambientado numa Hollywood dos anos vinte, quando astros do cinema mudo faziam bater forte o coração de mocinhas apaixonadas, O Artista realiza um virtuoso exercício de metalinguagem ao retratar o cotidiano destas produções e, principalmente, a vida do fictício “galã-mudo” George Valentin, soberbamente interpretado por Jean Dujardin. Com a inexorável aproximação da era do cinema sonoro em seu encalço, Valentin irá conhecer a ruína financeira ao mesmo tempo que conhece o amor e dedicação da bela Pappy Miller (Bérénice Bejo, outra inspirada atuação deste filme), jovem atriz que surge junto com os alto-falantes das salas de exibição e inadvertidamente acaba lhe roubando seu lugar no estrelato.


Cena do filme O Artista [foto: divulgação]

Ao longo de seus cem minutos de duração, testemunhamos em matizes de cinzas os encontros e desencontros de nosso casal protagonista, cujas ideias e diálogos ficamos sabendo apenas por meio das legendas de tela inteira que esporadicamente se imprimem na tela, resgatando a antiga dinâmica narrativa do cinema mudo.

Sem diálogos ou sonoplastia, fica então mais evidente que este emocionante filme conta com um terceiro protagonista: a música. Neste caso, coube ao compositor francês Ludovic Bource conferir importante atuação no filme por meio de sua partitura.

Até então desconhecido no ramo (em seu currículo há poucos e, em bom português, insignificantes trabalhos na área), Bource recebeu um verdadeiro bilhete de loteria em termos de música para cinema. A importância do som e da música no cinema é evidente, apesar de nem sempre espectadores desatentos se aperceberam que muito da emoção que um filme eventualmente lhe causa vem mais do que está ouvindo do que pelo o que está sendo visto. Porém, na poética do cinema mudo, cabe à música o peso de garantir e reforçar toda carga dramática e sentimental que as imagens potencialmente trazem. E isto de forma praticamente ininterrupta!

Mas da mesma forma que, enquanto filme, O Artista não se reduz a um mero exercício técnico-estilístico de refazer, nos dias atuais, um filme aos moldes da década de 1920, a condição de metalinguagem é estendida à sua partitura.

Utilizando o vocabulário das diversas escritas orquestrais da época em que o filme está ambientado, Bource nos conduz e um verdadeiro passeio estilístico, ora em Mahler, ora em Strauss, ora nos Impressionistas franceses, sempre regado a generosas doses de jazz. Aqui e acolá surge trechos de música não original (tal como Estancia, de Alberto Ginastera), o que em nada diminui a maestria de de Bource no trabalho de condução musical deste singular e originalíssimo roteiro, verdadeira sinfonia em preto-e-branco cuja escuta se sustenta mesmo sem a parte visual na tela.