Tagliaferro: melhor em CD do que no YouTube

Um hábito arcaico do qual ainda não consegui me desvencilhar completamente é a aquisição de CDs. Claro que ele sofreu mudanças: da desenfreada compulsão que era há 20 anos, transfigurou-se em um velho vício no qual só me permito reincidir com parcimônia.

Uma das vantagens dessa ponderação conquistada com o passar dos anos é que faz muito tempo que não me arrependo desse tipo de compra. Mais do que isso, as escassas aquisições têm se revelado altamente compensadoras.

Na música popular, andei me esbaldando com Corpo de baile, no qual Monica Salmaso emoldura, com requintes de Kammersängerin e arranjos refinados, 14 obras-primas de Guinga e Paulo César Pinheiro. E, na música de concerto, o mais recente festim foi-me propiciado por Le piano français de Chabrier à Debussy, inestimável documento do talento de Magda Tagliaferro (1893-1986).


Magda Tagliaferro e o álbum relançado pela Erato: documento do talento [imagens: divulgação/reprodução]

A fala teatral e veemente de Tagliaferro, seus vestidos, maquiagem, perfumes, cabeleira vermelha e personalidade forte são ainda hoje quase tão recordados quanto seus méritos pedagógicos. Magda formou não uma, mas várias gerações de pianistas, e teve uma carreira nos palcos cuja longevidade perigosamente excessiva acabou prejudicando sua reputação.

Explicando: devido a problemas financeiros, Tagliaferro acabou tendo que tocar em público mesmo quando os dedos já não tinham mais precisão para responder aos comandos de sua prodigiosa mente musical. Por isso, as últimas lembranças que as pessoas guardam de suas performances ao vivo não raramente mesclam pena e melancolia.

Assim, é fundamental um lançamento como esse da Erato, que resgata a arte de Tagliaferro em seu auge, e ajuda a entender por que, sem patriotada, ela pode ser considerada como uma das grandes artistas do teclado do século XX.

Gravado em Paris, em 1961, o recital está saindo em CD pela primeira vez: havia sido lançado pela Erato em LP em 1962, aparecendo no mercado japonês em 1970, para ser reeditado em solo francês em 1973.

Aos 68 anos, Tagliaferro se mostra totalmente à vontade em um repertório que dominava à perfeição: miniaturas pianísticas de Chabrier, Séverac, Hahn e Saint-Saëns. A cereja desse bolo tão saboroso é Debussy: Pour le piano, Arabesque nº 1 e 2, e L'isle joyeuse.

Não entra em questão discutir o senso de estilo de Tagliaferro: ela estabelece os padrões estilísticos pelos quais os outros intérpretes devem ser julgados. Cada peça é tomada como um mundo em si mesmo, e a pianista usa seus recursos estilísticos de agilidade, inteligência, humor e lirismo para dar a cada uma delas uma caracterização individual, matizada e saborosa.

Por isso, quando o assunto for Tagliaferro, tenha muito cuidado com os vídeos do YouTube em que ela nem sempre aparece no melhor de  sua forma. Talvez seja mais sábio ceder a um uso do século do passado e comprar um CD. Nem que seja a única vez no ano em que você faça isso.

[O CD Le piano français de Chabrier à Debussy está disponível na Loja CLÁSSICOS]

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