Teatro Colón: "Lohengrin" com Ira Levin

Um tenor muito abaixo da crítica e um regente bem acima da média foram os extremos da montagem de Lohengrin, de Wagner, que estreou no Teatro Colón, em Buenos Aires, na última terça-feira, dia 20.

Com direção de Roberto Oswald, Lohengrin teve uma encenação relativamente tradicional, embora não sobrecarregada. De alto nível, o elenco destacou o legendário Kurt Rydl como um rei Heinrich de autoridade, e James Johnson fazendo maravilhas como Telramund - um papel “ingrato” que, aqui, soou soberbo. Ann Petersen construiu uma Elsa de intensidade crescente, cujo ápice de entrega foi o terceiro ato, enquanto Janina Baechle foi uma Ortrud cenicamente convincente e não mais que correta do ponto de vista vocal.

O problema é que a ópera se chama Lohengrin, e o Lohengrin foi o problema. Inicialmente haviam anunciado para a parte Michael Hendrick, que já aprontou diversas lambanças vocais no Festival de Manaus, e foi previsivelmente gongado nos ensaios de Buenos Aires.


Cena de Lohengrin, no Teatro Colón de Buenos Aires.

Chegou a se falar no nome do astro canadense Ben Heppner, supostamente vetado por estar “gordo” e “pouco confiável”. E daí me aparecem com um tal John Horton Murray, que até gravou trechos da ópera pela Naxos.

Que bela engenharia de som deve ter a Naxos, para resolver os problemas de um tenor que, inadequação cênica e desleixo pelo fraseado à parte, brigou com a afinação o tempo todo. O ápice, como se esperava, veio em “Im fernem Land”, a ária, no terceiro ato: depois de sua voz “quebrar” no lá agudo, Murray desistiu da escrita wagneriana original, cantando uma oitava abaixo até o fim da ópera. Deu vergonha alheia.

Embora, para se proteger, tenha entrado para os agradecimentos junto com o menino figurante que fez o papel do herdeiro de Brabante, Murray nem assim escapou das vaias. Espera-se que seu substituto, Richard Crawley, tenha melhor sorte nas récitas subsequentes.

Sorte mesmo têm os portenhos por possuírem um teatro de beleza arquitetônica avassaladora, excelência acústica inverossímil, coro de nivel internacional e uma orquestra que, superando a bravíssima crise permeada por greves que atravessou neste ano, soube executar todos os matizes da partitura de Wagner de forma inspirada e inspiradora.


Cena de Lohengrin, no Teatro Colón de Buenos Aires.

O responsável pelo êxito orquestral foi Ira Levin, o talento norte-americano que o Brasil não soube conservar. Levin manteve a energia e a concentração ao longo de toda a récita, trabalhando com delicadeza dinâmica, fraseado e planos sonoros, sem jamais perder o sentido do drama. Radicado em Berlim, ele anda gravando, com a excepcional London Symphony Orchestra, CDs dedicados à música de Michael Collina, e já foi convidado para voltar ao Colón no ano que vem.

E por falar em ano que vem: enquanto no Brasil não temos a menor ideia do que faremos na grande efeméride operística de 2013 (o bicentenário de nascimento de Wagner), o Colón já anuncia, como prelúdio a ela, uma iniciativa de repercussão internacional: em 27 de novembro de 2012, encenará uma versão condensada do Anel do Nibelungo.

Cord Garben é o responsável por "enxugar" a tetralogia, reduzindo-a de 15 horas de música para sete, e fazendo-a, assim, caber em um único dia: com os devidos intervalos, a performance começa ao meio-dia e termina à mea-noite.

Heresia? Talvez, mas com grife familiar, já que a iniciativa terá direção cênica de ninguém menos que Katharina Wagner, bisneta do compositor, cuja simples presença já deve garantir que todos os holofotes da cena lírica internacional estarão voltados para Buenos Aires nessa época do ano. Enquanto isso, do lado de cá da bacia do Prata...