Teatro Municipal de São Paulo: agora vai? Vai para onde?

Como os balanços são inevitáveis nessa época do ano, gostaria de me debruçar sobre o Teatro Municipal de São Paulo – já que o destino da casa parece estar em jogo na mudança política recentemente decidida nas urnas pelos cidadãos paulistanos.

Não me parece exagero dizer que, em 2012, o centro de gravidade da vida musical na cidade se deslocou da Sala São Paulo para o Teatro Municipal. Pelo número e qualidade das produções, acho que dá para chamar a temporada de óperas do Municipal de histórica. Tivemos títulos consagrados e estreias paulistanas, abrangendo do século XVIII ao XX, contemplando as três grandes escolas nacionais (italiana, alemã e francesa) sem descuidar do espaço para a ópera brasileira.

Tudo feito com alto nível artístico, incluindo elencos bem montados e diretores cênicos arrojados, que adotaram linguagens contemporâneas e convincentes do ponto de vista plástico e teatral. O Macbeth de Bob Wilson constituiu, assim, menos uma exceção do que o ponto culminante de uma programação memorável.

Contudo, parece-me igualmente pertinente enfatizar que toda essa temporada foi levada a cabo não dentro de uma estrutura profissionalíssima como a da Fundação Osesp, e sim apesar da incrível precariedade gerencial que vem se arrastando há décadas no Municipal. A gestão que agora se encerra vendeu como panaceia a transformação do Teatro em fundação. Pois bem: a tal fundação foi aprovada em lei, no ano passado, mas jamais implementada. Assim como não se encontrou a tal Organização Social encarregada de geri-la.

Ficou o dito pelo não dito, e o resultado é a manutenção das velhas “gambiarras”. Para quem não está familiarizado com o tema: músicos, dançarinos e professores do Teatro Municipal são contratados como prestadores de serviço autônomos pela Prefeitura Municipal de São Paulo, sem acesso básico aos direitos trabalhistas previstos na constituição federal, tais como férias e 13º salário. No caso dos professores das escolas de música e de dança a situação é ainda mais grave, pois eles contam apenas com 11 salários por ano.

Benefícios como plano de saúde, plano de carreira, aposentadoria, vale-transporte, vale-alimentação, licença médica, licença maternidade, licença nojo e afins não estão previstos nos contratos atualmente realizados. E há queixas frequentes de desnível salarial entre os corpos estáveis.

Simples de resolver esse imbróglio não é. Pois as principais forças políticas da cidade (malufismo, tucanato, PT) já se alternaram no comando da Prefeitura, e nenhuma delas apresentou solução satisfatória para o problema.

Mas o fato é que a vitalidade dos corpos estáveis e o potencial do Complexo Cultural Praça das Artes, ainda a ser concluído, dão ao Municipal credenciais para se tornar uma das principais usinas de criação musical da América Latina. Resta saber se agora a casa finalmente vai afrontar as questões estruturais que vem evitando há tanto tempo, ou se seguirá a varrê-las para debaixo do tapete.