Tortelier, Osesp e o vácuo do poder

por Leonardo Martinelli 09/03/2009

A sala: Para quem adentrou a Sala São Paulo entre a última quinta-feira e sábado tudo estava praticamente igual: a audiência, que aos poucos lota seus corredores, alguns músicos circulando como aves raras pelos saguões, o tilintar de pratos e copos e todo este cerimonial não institucionalizado que naturalmente antecede cada espetáculo. Nos bastidores, ainda é possível ver pôsteres de antigos cartazes ostentando nomes familiares, mas necessariamente pretéritos. Dentre os quais, salta aos olhos o de John Neschling. Mesmo nos vídeos institucionais exibidos nas televisões do saguão foi possível flagrar, por um átimo, a imagem do regente carioca à frente da orquestra paulista. Mas rapidamente a comunicação se retificava, com as palavras “nosso maestro” flutuando sobre a imagem de Yan Pascal Tortelier.

O maestro: Os músicos adoraram, o público aclamou e a crítica especializada ratificou, e de fato, a estréia de Tortelier foi um grande – e previsível – sucesso. Regente de talento e com carreira internacional consolidada, Tortelier é, a sua forma, carismático, e sua aclamação nada mais natural a uma audiência acostumada a diferentes regentes e solistas e a um povo naturalmente acolhedor.

Regendo de cor, Tortelier não decepcionou ao interpretar um repertório escolhido por ele próprio para esta ocasião tão especial. Com as Variações Enigma, de Elgar, o maestro francês demonstrou seu controle de nuanças e matizes da escrita orquestral, e com a Sinfonia nº 2, de Rachmaninov, sua capacidade de conferir fluidez a uma obra de grandes proporções.

Jogando no time dos regentes orquestrais “sem batuta”, Tortelier faz da regência uma verdadeira coreografia, onde seus dedos expressam as sutilezas, suas mãos o controle, e seus braços o tempo musical. E quando não há mais gestos que dêem conta, o maestro estende sua coreografia às pernas, chegando mesmo a pular nos momentos mais empolgantes da partitura.

A engrenagem: Tortelier é o regente-principal da Osesp (ou regente titular interino, como também se anuncia). Isto significa, que caberá a ele conduzir os principais programas e a manter a engrenagem performática da Osesp em movimento. Mas, como num grande relógio, a performance é apenas os ponteiros, e todos sabem que o que faz eles se movimentarem são as engrenagens escondidas por detrás da superfície. Se antes a condição de regente titular e diretor artístico acumuladas por Neschling garantiam (para o bem ou para o mal) a integração da superfície com a infra-estrutura, a mudança – por ora anunciada como temporária – desta estrutura de funcionamento resulta num vácuo de poder com conseqüências imprevisíveis já em médio prazo.

Por ora, as coisas caminharão acompanhando a inércia do trabalho feito nos últimos dois anos (inclusa a programação deste e do ano que vem). Porém, enquanto a função e as atribuições de real diretor artístico não se definem, fica um hiato potencialmente problemático tendo em vista que o conselho de administração da Osesp não tem (e nem é esta sua função) a competência artística necessária para o assunto. Mesmo a inserção de especialistas estrangeiros no conselho não garante a estabilidade necessária, na medida em que eles agirão mais como consultores, não necessariamente integrados no dia-a-dia da orquestra e não familiarizados com as peculiaridades da cena musical brasileira. Por outro lado, a promoção de funcionários burocráticos (ainda que com pontos artísticos em suas biografias) à direção artística não pode ser encarado como alternativa.

Em resumo, excelentes regentes não faltam no mundo (e alguns deles são brasileiros). Mas o que a Osesp precisa agora não é só de um maestro, mas de um eixo e força motriz que seja capaz de atuar nas diferentes frentes desta fantástica engrenagem musical que se tornou esta orquestra.

E o futuro...: De mesma forma que a entrada de Neschling na Osesp foi algo revolucionário, assim também será sua saída. Mas, dos muitos perigos inerentes a um movimento revolucionário, o maior deles é o da contradição, isto é, onde os revolucionários incorrem nos mesmos pecados do regime derrubado.

Em seu conto de fadas pós moderno “A revolução dos bichos” (Animal Farm), o escritor inglês George Orwell faz uma lúcida análise dos pecados da revolução soviética ao fazer de personagens e fatos históricos base para sua fábula, onde galinhas, cães raivosos, cavalos e porcos simbolizam os diferentes estratos da sociedade russa, no texto metaforizada em uma fazenda onde os animais expulsam os opressores humanos do poder.

Porém, pouco a pouco, os porcos – então responsáveis pela gestão da fazenda – vão mudando as leis, passam a se cercar de privilégios, a usar roupas humanas e, no ápice de sua embriaguez de poder, tornam-se iguaizinhos aos humanos.

Assim é a humanidade.

Mas enquanto o futuro não vira história (e espera-se que ele seja bem diferente desta fábula), bonne chance et soyez bienvenue, monsieur Tortelier!