Trifonov: um pianista para o terceiro milênio

Sou do tempo em que, para ter artistas internacionais no Brasil, dependíamos exclusivamente do esforço de uma Sociedade de Cultura Artística, Mozarteum Brasileiro ou Dell'Arte. Hoje em dia, tais entidades continuam, felizmente, não apenas ativas, como desempenhando um papel relevante em nossa vida musical.

Porém, desde a reformulação da Osesp por John Neschling, desfrutamos agora da doce rotina de ter na Sala São Paulo, a cada semana, pelo menos um daqueles nomes que acompanhamos cotidianamente nas matérias da Gramophone, publicadas e traduzidas pela Revista CONCERTO – além de a atual regente titular da orquestra, Marin Alsop, aparecer regularmente na imprensa especializada internacional. Para ficar em poucos exemplos, apenas neste ano, a Osesp recebeu convidados do naipe de Paul Lewis, Nathalie Stutzmann e desse prodígio internacional do piano chamado Daniil Trifonov.

Na verdade, tem acontecido tanta coisa boa na vida musical da cidade que a presença de Trifonov por aqui passou pela imprensa quase batida. O que é uma pena. Eu estava no Rio de Janeiro quando ele tocou com a Orquestra Sinfônica Brasileira, em 16 de novembro último, mas infelizmente não pude vê-lo, por incompatibilidade de horário. Saí, porém, boquiaberto das apresentações que fez poucos dias antes na Sala São Paulo – tanto o recital solo, quanto a Rapsódia sobre um Tema de Paganini, de Rachmaninov, acompanhado pela Osesp, sob a batuta de Giancarlo Guerrero, que a TV Cultura gravou, e transmite no próximo sábado, dia 7 de dezembro, às 21h30.

Acho que não é o caso de ficar me estendendo a respeito de concertos que já aconteceram há mais de um mês. Gostaria de aproveitar o ensejo para recomendar o disco que, em raro senso de oportunidade, sua gravadora lançou no Brasil por ocasião da presença do artista por aqui: The Carnegie Recital (disponível na Loja Clássicos).

Moldado por Tatiana Zelikman na usina de talentos que é a Escola de Música Gnessin, em Moscou, Trifonov, na juventude, saiu rapelando o que havia de concursos internacionais na sua frente, com destaque para o terceiro lugar no Concurso Chopin (2010) e os primeiros prêmios nas competições Arthur Rubinstein e Tchaikovsky (2011).

Hoje ele está radicado em Cleveland, mas sem perder as conexões com a gloriosa escola pianística de sua pátria, pois é pupilo de Sergei Babayan, armênio-americano que estudou no Conservatório de Moscou.

Muito mais do que o currículo, porém, o que impressiona em Trifonov (pronúncia proparoxítona – “trífonov”) é a pura musicalidade. O programa do CD é coisa de quem não saiu de casa a passeio: Segunda sonata de Scriabin, Sonata de Liszt e os 24 Prelúdios de Chopin.

Não estamos diante, porém, de um virtuosismo vazio e exibicionista. Trifonov parece ter especial gosto nos contrastes, sejam eles de ataque, de dinâmica ou de colorido sonoro. Cada seção de cada peça merece uma caracterização peculiar, uma ambientação sugerida pelas anotações do compositor na partitura e construída no momento em que o pianista coloca seus recursos técnicos aparentemente infindáveis a serviço de uma imaginação borbulhante e fértil.

Na música, como na vida, previsões são extremamente arriscadas. O cotidiano, o acaso e o subconsciente divertem-se em semear a trajetória de cada um de nós de imprevistos devastadores. Porém, mesmo levando tudo isso em conta, parece não ser extremamente temerário vaticinar que Trifonov vem apresentando qualidades que o credenciam como um dos primeiros grandes astros do piano no terceiro milênio.

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