Trocas culturais entre Brasil e Holanda

por Camila Frésca 23/03/2009

No último dia 17 de março aconteceu em Amsterdã o lançamento do “Cultural Mapping” do Brasil, projeto que envolve uma publicação e uma série de ações voltadas para o intercâmbio cultural entre a Holanda e o Brasil.

Trata-se de uma iniciativa da Sica (Service Centre for International Cultural Activities), entidade criada em 1999 e que trabalha em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e da Educação da Holanda, com o objetivo de coordenar a troca de informação e conhecimento entre setores culturais locais e de outros países. Por sua posição econômica, diversidade cultural e relação histórica com a Holanda – todos aprendemos na escola sobre a colonização holandesa no Nordeste brasileiro durante o século XVII – o Brasil foi o país escolhido para a iniciativa. Aliás, curiosamente, o lançamento aconteceu justamente no prédio onde funcionara a Companhia das Índias Ocidentais.

Nos últimos anos, o Brasil tem despertado frequente interesse internacional por aspectos relacionados a sua cultura. Outra iniciativa que acontece na Holanda, dessa vez na cidade de Rotterdam (e que não tem nada a ver com o “Mapping”), é o “Brazilian Summer”, que durante uma semana, em junho, promoverá atividades como apresentações musicais e uma exposição que, procurando fugir dos clichês habituais, vai focar a cultura urbana de São Paulo.

Para o “Cultural Mapping”, no qual colaborei na área de música erudita ao lado de Claudia Toni, especialistas de diversas áreas como arquitetura, dança, design, literatura, teatro e moda foram convidados a “mapear” sua atividade no Brasil, fazendo um histórico da mesma, apontando as principais entidades e iniciativas da área e sugerindo de que maneiras poderia se estabelecer um intercâmbio entre os dois países.

(Paul Mosterd, diretor da Sica, discursa na abertura do Brazil Cultural Mapping.)

Se em algumas áreas este intercâmbio passaria principalmente por iniciativas comerciais ou se daria por eventos de grande visibilidade, como festivais e exposições, acreditamos que no caso da música a maneira mais eficaz de se produzir uma troca consistente e permanente seria promover o intercâmbio de estudantes e professores.

A Holanda é reconhecida entre nós por sua forte tradição na área de música antiga. Ricardo Kanji e Luís Otávio Santos, dois excelentes músicos brasileiros especializados nesse repertório, estudaram no Conservatório Real de Haya. Projetos duradouros envolvendo a educação, edição e acesso a réplicas de instrumentos antigos, por exemplo, poderiam significar um salto na quantidade e qualidade de execuções de nosso vasto repertório colonial. 

Também o exemplo da Muziekschool Amsterdam e seu método de ensino coletivo seriam ótimas referências para nossas escolas e programas de inclusão social por meio da música que têm surgido nos últimos anos. Além disso, as universidades dos dois países poderiam construir programas de cooperação e pesquisa que visassem não só a performance e a formação de instrumentistas mas também a capacitação de pesquisadores e especialistas.

Não podemos nos esquecer ainda das excelentes orquestras holandesas como a de Rotterdam, a Netherlands Radio Philharmonic e a Concertgebouw – que em enquete promovida ano passado pela revista “Gramophone” com alguns dos mais importantes críticos internacionais foi eleita a melhor orquestra do mundo. Certamente seria um prazer tê-las em nossas salas de concerto, mas por que não termos também seus músicos ministrando cursos em nossos festivais? Todas essas ações se referem à contribuição holandesa para o Brasil; outras tantas iniciativas poderiam ser apontadas para o fluxo inverso.

O texto produzido por cada um dos especialistas do “Cultural Mapping” está sendo reunido numa publicação que deve ser lançada em breve na Holanda. Espera-se que este seja o primeiro passo para o início de uma série efetiva de ações. Na área da música erudita, há um universo pleno de possibilidades a ser desbravado.