Tsunami cultural

por Nelson Rubens Kunze 06/04/2011

Defendi no mês passado, nesse mesmo espaço, a proposta da Fundação OSB (Fosb) para a construção de uma grande orquestra sinfônica no Rio de Janeiro [clique aqui para ler]. Sinceramente, olhando de longe, é difícil entender como um projeto com esses nobres objetivos – afinal, pretender construir uma orquestra de qualidade que ofereça à cidade uma oferta musical de alto nível é um objetivo nobre! – tenha, desde o princípio, gerado tamanha resistência e comoção entre os cariocas. Compartilho do ideal do mérito, da dignidade, da qualidade e da transparência. Todos, assim creio, previstos no projeto da Fundação OSB.

Fato é, contudo, que ações erradas e desumanas da Fosb ofuscaram aqueles nobres objetivos e, agora sim, um verdadeiro tsunami cultural varre a Cidade Maravilhosa. Ou o que dizer dos desdobramentos da crise nas últimas semanas e, em especial, nos últimos dias, que por fim levaram à decisão da Fundação OSB em demitir, por insubordinação, mais de 30 músicos de sua orquestra?

Não sei se há justificativas para um encaminhamento tão radical. Mas a decisão, de certa maneira, compromete a realização daqueles nobres ideais que a Fosb persegue. E ela alarga o já grande fosso entre a orquestra e toda a classe musical carioca. Ao que parece, já não há no Rio de Janeiro qualquer apoio ao projeto da Fundação OSB. Se havia dúvidas em relação a isso, elas foram dirimidas com as manifestações de Antonio Meneses, Cristina Ortiz, Roberto Tibiriçá e finalmente de Nelson Freire.

Por um lado, a decisão do sereno Nelson Freire em cancelar suas participações com a orquestra – ele que representa uma forte simbologia na história da própria OSB – é um alerta que deveria estimular uma reavaliação dos encaminhamentos da Fundação OSB. Por outro lado, acredito que Nelson Freire certamente gostaria de que o Rio de Janeiro tivesse, finalmente, uma orquestra profissional com projeção internacional, que oferecesse programas regulares e instigantes, com músicos bem pagos e motivados. Não seria isso, para todos nós, um grande orgulho e uma grande conquista? A crise na OSB, contudo, chegou a um ponto em que já não cabe mais discutir essas questões, nem a malfadada avaliação de desempenho ou a disputa para descobrir se a culpa das demissões é dos músicos ou da direção da Fosb.

Creio que chegou a hora, sim, em que a Fundação OSB deveria reconsiderar suas decisões incorretas e desumanas para reverter o quadro de desunião que paira sobre a comunidade musical carioca. Por que não rever, caso a caso, essas dezenas de demissões sob as vistas de um mediador consensual? Por que não instituir planos de aposentadoria (especialmente para um músico de 78 anos que serviu a OSB por décadas)? Por que não reavaliar a polêmica participação da OSB Jovem dentro da temporada internacional?

Esse não seria um gesto de desistência de um projeto profissional e de excelência. Seria, isso sim, um gesto de grandeza, que resgataria a humanidade nos relacionamentos e demonstraria o interesse em reabilitar os laços com a classe musical carioca, possibilitando o futuro desenvolvimento da orquestra.