Tutu à mineira

por Leonardo Martinelli 21/10/2013

Ninguém duvida que a culinária regional seja um dos grandes cartões de visita da cultura mineira. E dentre tantas delícias, como não destacar o prato que carrega a terra em seu nome, o tutu à mineira? Porém, vale a pena lembrar que a palavra “tutu” significa também dinheiro, e os concertos que a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais realizou na Sala São Paulo nos dias 17, 18 e 19 de outubro deixam claro que esse povo possui um verdadeiro tesouro musical.

Sob a regência Fabio Mechetti (diretor artístico e regente titular do grupo), a filarmônica iniciou sua apresentação com a abertura da ópera Tannhäuser, de Richard Wagner. A escuta desta obra de múltiplos coloridos – desde sonoridades discretas e litúrgicas até massas imponentes e exuberantes – permitiu constatar o excelente trabalho de coesão tímbrica que o grupo vem desenvolvendo. A filarmônica mineira mostra-se bem à vontade na Sala São Paulo, e, sem fazer cerimônias, a ocupou da forma que lhe foi mais conveniente ao dispor suas trompas ao centro, por detrás dos sopros madeiras (e não na lateral esquerda do palco, como de costume) e, como um todo, tocar fisicamente mais junto, sem se importar com eventuais espaços vazios que sobrem nas laterais do palco. Ao menos para quem estava sentado no balcão mezanino (tal como foi meu caso) o resultado foi uma sonoridade bastante equilibrada.

Ainda na primeira parte do programa a orquestra acompanhou o jovem pianista norte-americano Conrad Tao na sua interpretação do Concerto para piano, op. 13, de Benjamin Britten. Tao conta com apenas com 19 anos de idade, momento de uma difícil e delicada transição na qual o músico precisa cada vez mais se provar como artista e menos como menino prodígio.


Mechetti, Tao e a Filarmônica de Minas, na Sala São Paulo [foto: Alexandre Rezende/divulgação]

O Concerto de Britten encerra uma sonoridade naturalmente expansiva e juvenil, que cai como uma luva para toda a eletricidade que Tao traz consigo. Pianista e orquestra souberam conduzir esta partitura de forma bastante precisa e, novamente, o equilíbrio entre as sonoridades voltou a impressionar. Sete anos depois de compor essa peça, Britten realizou uma revisão na qual inseriu um movimento a mais, o Impromptu: Andante lento. Aqui foi enfim possível vislumbrar um pianista mais reflexivo e dramático, menos narcisista em relação aos seus incríveis dotes virtuosísticos. Mas introspecção ainda não é o ponto forte de Tao, e nada mais natural (e delicioso) que a escolha que ele fez para seu bis, o explosivo Precipitato da Sonata n° 7 de Prokofiev.

Para a segunda parte da apresentação, Mechetti regeu, de cor, a Sinfonia n° 3 de Serguei Rachmaninov. Ampliando-se todos os predicados anunciados com o Wagner da primeira parte, a interpretação desta preciosa partitura foi um verdadeiro deslumbre. Aqui a Filarmônica de Minas Gerais demonstrou, mais uma vez, não apenas a coesão sonora de seus naipes e o modo como interagem de forma equilibrada, mas também foi o momento de seus solistas se revelarem: dos sopros madeiras aos metais, culminando com os lindos solos de seu spalla Anthony Flint, fica então claro a excelente qualidade de matéria prima que compõe essa maravilhosa massa orquestral.

Como de hábito, Mechetti mais uma vez deu provas que sabe muito bem como moldar e manusear essa massa que tem em mãos, com pleno domínio de tempos e andamentos, conduzindo a orquestra para sonoridades grandiosas, sem jamais cair na “gritaria”, ao mesmo tempo em que passagens mais sutis são realizadas de forma clara e expressivamente lírica.

As apresentações da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais na terra da garoa coincidem com o anúncio de sua temporada 2014, que prevê não apenas a presença de peças bonitas e regentes e solistas interessantes, mas, sobretudo por programas instigantes que prometem garantir um ótimo Ano Novo sinfônico para os habitantes de Belo Horizonte e região. Sorte a deles...

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