Um Bach 100% independente

Eu sou do tempo em que o adjetivo "independente", em música, trazia consigo uma forte carga de amadorismo e marginalidade. O disco "faça isso mesmo" era coisa de punks que jamais haviam superado a adolescência; música "de verdade", gravada com qualidade, só era possível realizar dentro dos limites da todo-poderosa indústria fonográfica.

Hoje, felizmente, o quadro é bem outro. A erosão do monopólio da indústria fonográfica só dói mesmo no bolso dos magnatas do disco. O aceleradíssimo avanço tecnológico das últimas décadas, acompanhado por vertiginosa baixa no preço dos equipamentos, democratizou decisivamente o registro de fonogramas. Não é mais preciso estar atrelado a uma grande companhia para conseguir fazer boas gravações.

Todo mês, nas páginas da Revista CONCERTO, a gente tem a chance de acompanhar os benefícios que essa revolução tecnológica traz para a música erudita. Nas páginas finais da revista, sempre tem um artista novo, colocando à venda o disco independente com o qual divulga seu trabalho.

É evidente que há oscilações de qualidade entre CD e CD. Mas fiquei feliz em encontrar, recentemente, uma comprovação de que, nas condições mais "alternativas" e independentes, é possível produzir discos de padrão internacional, tanto técnico quanto artístico.

Estou falando do maravilhoso CD com as três primeiras suítes para violoncelo solo de Johann Sebastian Bach, que o grego radicado no Brasil Dimos Goudaroulis resolveu gravar com um instrumento de época, a partir do manuscrito da viúva do compositor, Anna Magdalena Bach.

Como não há cópia autógrafa das peças, as suítes andaram abertas a todo tipo de interpretação – a partir de quatro manuscritos do século XVIII (o de Anna Magdalena, o do organista Johann Peter Kellner, e dois anônimos) já foram feitas mais de 90 edições das partituras desde a primeira, em 1824.

Dotado de uma desconcertante diversidade de articulações e arcadas, o manuscrito de Anna Magdalena Bach jamais havia chegado ao disco, até que Dimos usou toda essa diversidade como ponto de partida para construir um discurso musical rico, sólido e coerente. Não, você nunca ouviu as suítes tocadas desse jeito – e, se gostar desse repertório, vai precisar ouvir essa gravação, mesmo que tenha outros registros das peças (como o disco histórico de Anner Bylsma, o primeiro a utilizar violoncelo de época, ou o maduro CD duplo de Antonio Meneses).

Em que condições foi feito esse disco? Dimos pegou seu violoncelo barroco e levou à casa de um amigo, o compositor e multiinstrumentista André Mehmari. Lá, na Serra da Cantareira, entre equipamentos de última geração, Mehmari captou, com calor, ambiência e realismo, a sonoridade encantadora do violoncelo de Dimos. E o resultado foi um disco adulto, consistente, profissional – e 100% independente, completamente desatrelado dos humores da indústria fonográfica e seus enigmáticos executivos e diretores de marketing.

Serviço:
Bach – 3 Suítes para Violoncelo
Por Dimos Goudaroulis
Lançamento Tratore. Nacional. R$ 26,80.
Veja mais detalhes aqui.


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