Um brinde aos Sísifos brasileiros

por João Marcos Coelho 29/07/2014

A meritocracia, critério tão banal hoje no recrutamento e seleção de jovens profissionais em todos os campos de atividade, teima em não chegar ao mundo da música clássica. Os jovens candidatos a engenheiros, administradores e outras qualificações submetem-se a baterias de testes, entrevistas, enfim, um exaustivo e minucioso pacote de avaliação objetiva para conseguir estágios em grandes empresas e abrir as portas para uma carreira profissional bem-sucedida. O funil é rigoroso, mas os critérios são objetivos, premiam os melhores.

No mundo da música clássica, no entanto, o desafio é muito maior. Imagine um aluno brasileiro de qualquer instrumento – violino, piano, violoncelo, oboé, clarinete – que apresente um talento diferenciado. Pois acredite: ele tem de ir para a Europa ou Estados Unidos, enfrentar dúzias e dúzias de asiáticos, além dos nativos europeus, norte-americanos e russos (no caso de Antônio Meneses, por exemplo), para se firmarem. E só então, acreditem, eles pisarão nos palcos mais seletos do... Brasil.


Cristian Budu, que venceu o Concurso Clara Haskil, em Vevey, na Suíça, em 2013 [foto: divulgação]

É uma inversão absurda de valores. O caso relatado aqui mesmo neste espaço, da turnê deste ano da Osesp, que leva a tiracolo um jovem pianista russo Dmitry Mayboroda, 21 anos, é exemplar (Cosmopolitismo ou jequice?, de João Luiz Sampaio). A orquestra brasileira contratou o pianista que perdeu para o brasileiro Cristian Budu no Concurso Clara Haskil, em Vevey, na Suíça. O argumento de que ele já havia sido escolhido muito antes do concurso explica, mas só reforça um cacoete das nossas instituições mais fundamentais na vida musical nativa: as orquestras. Elas só chancelam jovens “vencedores” lá fora. É a senzala aguardando a aprovação da casa-grande para só então festejar os nativos e às pressas conceder-lhes espaço em suas temporadas.

Até algum tempo atrás, os concursos para preenchimento de vagas nas orquestras era uma bagunça total, onde valia mais o compadrio tão entranhado em nossas raízes do que a competência. Com a disseminação da audição às cegas dos candidatos, diminuiu a zorra.

O raciocínio torto estende-se também às encomendas de peças a compositores e à escolha de mestres de composição no Festival de Inverno de Campos do Jordão. Não se trata de exigir reserva ou cota para compositores ou músicos nacionais. Nada disso.

O argumento é ainda mais primário. Se os jovens talentos brasileiros – instrumentistas e compositores incluídos – continuarem a ser trocados por promessas norte-americanas, europeias ou do leste europeu/Rússia, quem dará espaço lá fora pra eles?  Ninguém. Só às custas de esforços monumentais. Por isso, justamente, de cada dez jovens talentos que poderiam construir carreiras importantes aqui e no exterior – apenas um ou outro Sísifo, disposto a carregar uma pedra até o topo da montanha, vê-la despencar e retomar indefinidamente a subida... até vencer, contra todos os prognósticos, um concurso internacional.


Luíz Fílip, um dos primeiros-violinos da Filarmônica de Berlim [foto: Anja Collins/divulgação]

Foi assim em 1982, quando o pernambucano Antônio Meneses concorreu e derrotou um punhado de violoncelistas russos em Moscou, no Concurso Tchaikovsky. Meses antes, pedira ajuda ao governo brasileiro para a viagem, que lhe foi negada. Após a vitória, recebeu do Itamaraty os parabéns regulamentares e – aí sim – ajuda financeira. Lógico que ele recusou. A história repetiu-se há pouco com o pianista Cristian Budu, que só é admitido nos “grandes palcos brasileiros” agora, depois de ter vencido em Vevey, um dos mais importantes concursos internacionais de piano do planeta. E também com o violinista Luiz Filipe, que só agora, como Luíz Fílip, chancelado como um dos primeiros-violinos da Filarmônica de Berlim, pisou a Sala São Paulo em grande estilo em julho.

Um brinde aos Sísifos incansáveis que vencem obstáculos tão formidáveis. É preciso ter férrea determinação e a música na alma. E sonhar com o impossível.

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