Um violino do século XVII a serviço da música contemporânea

Uma estrela do cenário internacional da música de concerto cuja face vai se tornando cada vez mais familiar aos paulistanos é Gidon Kremer. Eu, particularmente, já perdi a conta de quantas vezes o violinista letão de 61 anos já se apresentou por aqui.

Kremer é um legítimo herdeiro da velha escola russa do violino, que estudou com o mítico David Oistrakh no Conservatório de Moscou. Era casado com a pianista russa Elena Bashkirova (que tocou por aqui em outubro) quando ambos deixaram a então URSS, em 1979. Depois, Bashkirova passaria aos braços de Daniel Barenboim, quando este ainda era casado com a violoncelista britânica Jacqueline Du Pré. Mas daí já é uma outra história...

A história que vem interessando cada vez mais, no caso de Kremer, é a de seu envolvimento crescente com a música contemporânea. Sem abandonar o repertório mainstream, ele vem colocando seu precioso violino Amati de 1641 cada vez mais a serviço dos autores vivos.

O compromisso é tão grande que o músico quase chega a se desculpar pela falta de radicalidade da linguagem de Giya Kancheli, compositor georgiano radicado na Bélgica, de 73 anos de idade, cujo quarteto com piano In l'istesso tempo faz parte do programa de suas apresentações no Brasil, ao lado do Trio n° 2, de Dmitri Chostakovitch, do Quarteto com piano op. 60, de Brahms, e de uma transcrição para violino e piano, feita por Evgueni Charlat, do Prelúdio, fuga e variação op. 18 (originalmente para órgão), de César Franck.

"Ao lado de Pärt e Gubaidulina, Kancheli é um dos extraordinários compositores contemporâneos, com sensibilidade e beleza", diz o violinista. Citar Arvo Pärt é bem oportuno, já que a qualidade estática e espiritual da obra do autor georgiano parece evocar bem de perto o mundo sonoro de seu colega da Estônia.

"Kancheli tem uma linguagem conservadora, e, embora não represente a vanguarda, sua música tem alma e assinatura", afirma Kremer. "Basta escutar qualquer obra sua por 20 segundos e você já sabe que a música é dele."

"A música emocional me atrai, porque eu não toco contemporâneo apenas para tocar contemporâneo", diz o músico. "Eu busco peças que possam criar pontes com o público, para que este não saia da sala de concertos confuso, ou aborrecido. Minha idéia é ser criativo com o público e os parceiros."

Parceiros que revelam um outro lado interessante da personalidade de Kremer: a idéia de estimular a música de concerto na região em que ele nasceu, a orla do Mar Báltico. Foi para isso que ele criou, em 1997, a Kremerata Baltica, amealhando jovens instrumentistas das ex-repúblicas soviéticas da Lituânia, Letônia e Estônia. Os três parceiros musicais que ele traz a São Paulo, por sinal, são lituanos: Ula Uljona (viola), Giedre Dirvanauskaite (violoncelo) e Andrius Zlabys (piano) - o único dos quatro que não é membro da Kremerata.

"Não estou ligado à vida acadêmica e dou muito poucas master classes, de modo que fundar a orquestra foi o jeito que encontrei de compartilhar minha experiência com músicos mais jovens", explica. Dias 10 e 11, em São Paulo, na série do Mozarteum Brasileiro, e dia 14, na deslumbrante acústica da Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, vamos poder conferir no que dá a "química" entre a experiência de Kremer e o entusiasmo de seus jovens parceiros.