Uma ode a Monk

por João Marcos Coelho 16/03/2016

Uma ode a Monk e ao descompasso entre corpo e mente, só rompido na criação artística

 

Sou um escancarado monkmaníaco. Desde que descobri o gênio do bebop me apaixonei por seu piano dissonante, feito de silêncios e melodias angulosas. Ao todo, cerca de 80 temas, que teimam em não entrar redondos nos ouvidos; acordes rascantes como ossos quebrados, ritmos completos, acentos deslocados, mudanças bruscas de dinâmica, hesitações, silêncios inesperados. Escutei tudo que ele criou e gravou ao longo de seus 64 anos, vividos entre 1917 e 1982. Até ser capa da Time, nos anos 1960, e ser reconhecido nos EUA, muito por causa do culto que se fez na Europa em torno dele, foi um calvário só; os últimos 10 anos de vida, passou em completo silêncio, no apartamento da baronesa de Koenigswarter, de frente para o rio Hudson, em Manhattan.


O lendário pianista de jazz Thelonious Monk, gênio do bebop [foto: divulgação]

Todos diziam que ele era um pianista incompetente, precário. Ora, como Roger Kelley revelou em uma minuciosa e reveladora biografia do músico em 1996, ele estudou piano sim. E piano clássico, durante 24 meses, entre os 11 e os 13 anos, com um judeu austríaco emigrado chamado Simon Wolf. Este vendia caro suas lições de piano porque assegurava ter estudado com Alfred Megerlin, um dos spallas da Filarmônica de Nova York. Na verdade, Thelonious estudou com Wolf desde os 4 anos, por cima dos ombros da irmã Marion, que desde criancinha foi a escolhida pela família para ter uma instrução musical sistemática (não havia dinheiro para pagar aulas para os dois). Mais: Simon era músico clássico. Fez Thelonious estudar peças de compositores como Chopin, Beethoven, Bach, Rachmaninov, Liszt e Mozart. Apesar de ter demonstrado paixão específica por Chopin e Rachmaninov, na verdade sua música apresenta mais afinidades com a do húngaro emigrado Béla Bartók, que viveu em Nova York nos anos 1930/40.

Quando surgiu na cena jazzística, na virada dos anos 1930/40 em Nova York, fugindo do virtuosismo como o diabo da cruz, o já esquisito jovem pianista provocou um verdadeiro deus-nos-acuda. Ainda mais que a sua figura era no mínimo bizarra: gorros dos mais variados tipos, introvertido, roupas extravagantes; costumava até dançar no palco desajeitadamente enquanto parceiros improvisavam.

Você pode conferir estas danças esquisitas, assistindo na íntegra ao documentário Straight no chaser, produzido por Clint Eastwood, que começa com Monk dançando desengonçadamente.

O bailarino, coreógrafo, ator e dramaturgo belga Josse de Pauw partiu destas dancinhas para construir um espetáculo comovente que discute o descompasso entre corpo e mente, mostrando como é impossível ambos estarem em sintonia. Exceto em raros instantes, como numa dança breve – principalmente se a música for assinada por um gênio como Monk. A primeira meia hora é emocionante, muito por causa também da competência de Kris Defoort e seus parceiros de trio, capazes de tocar temas tão conhecidos sem imitar o inimitável toque monkiano – mas sobretudo pelos improvisos e temas de Defoort. Este, aliás, é também compositor contemporâneo e bem poderia ter realizado uma apresentação com suas criações. Na meia hora seguinte, ele se dedica mais a mostrar os sinais de fragilidade do corpo à medida que os anos passam, e os momentos ainda mais raros em que o fogo da dança reacende a fagulha adormecida.

Pena que passaram desapercebidas, ao menos para a tribo dos que gostam de música de invenção em geral, as cinco noites em que o SESC Bom Retiro recebeu “An Old Monk”, um espetáculo que mistura de modo refinado texto, música e dança. O texto, a atuação e a dança são assinados pelo também diretor do espetáculo, Josse de Pauw, 64 anos; a música excelente foi produzida pelo trio piano-baixo-bateria do também belga Kris Defoort, 55 anos, responsável pelas composições, acompanhado por Nicolas Thys ao baixo e Lander Gyselinck à bateria.

No YouTube há pequenos trechos, que no entanto não dão uma ideia real da força do espetáculo.

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