Uma "Tosca" tradicional e leve em Belém do Pará

Vozes leves, encenação tradicional e uma orquestra surpreendente: fui a Belém ver Tosca e acabei não me arrependendo. A montagem da ópera de Puccini inaugurou, na última terça-feira, dia 8, a 10ª edição do Festival de Ópera do Teatro da Paz. Como acústica, arquitetura e entorno, não exagero ao afirmar que se trata de minha casa de ópera brasileira predileta: depois de oito meses fechado, o teatro de 1878 exterminou os cupins, conservando a beleza interna e externa, a sonoridade extremamente favorável a orquestra e vozes, em uma cidade charmosa e encantadora.

 

Como nível artístico, não há como não comparar o festival ao co-irmão que acontece em Manaus. Neste quesito, o evento paraense historicamente sempre acabou ficando algo à sombra do amazonense, mais antigo e mais ousado.


Ópera Tosca no Teatro da Paz, em Belém do Pará [foto: divulgação/ Eunice Pinto-Agência Pará]

Contudo, mesmo sem atingir as culminâncias do Festiv al Amazonas de Ópera, que, neste ano, emplacou versões memorávies do Diálogo das Carmelitas, de Poulenc, e do Tristão e Isolda, de Wagner, Belém deu um passo do tamanho da perna e se saiu com uma Tosca digna - o que, levando em conta os vexames a que de quando em vez somos submetidos em São Paulo, não é pouca coisa.

O jovem elenco nacional trazia um luxo - o soberbo Saulo Javan como sacristão -  e três vozes leves nos papéis principais. A química entre os cantores funcionou, e mais sólido deles foi o Scarpia de Rodrigo Esteves, que já havia cantado o mesmo papel no Teatro São Pedro, e demonstrou autoridade.

Silviane Bellato, que até então vinha cantando como soprano lírico, arriscou a mudança de registro vocal, navegando em águas mais dramáticas e perigosas com o papel-título da ópera. Talvez sua voz corra menos do que a de Javan ou Esteves, mas construiu uma Tosca intensa, bem caracterizada do ponto de vista cênico e bastante musical.


Cena do primeiro ato da ópera Tosca [foto: divulgação/ Eunice Pinto-Agência Pará]

Já Eric Herrero é um tenor que parece estar forçando a voz para pesá-la antes do tempo. Nessa operação, o vibrato soou excessivo e o nervosismo da estreia talvez possa ser responsabilizado pelos desencontros com a orquestra em suas duas árias e no dueto final com Bellato. De qualquer modo, a performance foi crescendo ao longo da récita, o material vocal é bom, e cenicamente ele se revelou um Cavaradossi crível e apaixonado.

Mauro Wrona optou por uma direção tradicional e sem arroubos, buscando seguir as indicações de Puccini e transmitir a trama de Tosca com clareza ao público. Conseguiu. Mas talvez a maior façanha tenha sido a do maestro Carlos Moreno, comandando a Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz.

Tradicionalmente, a orquestra é o calcanhar de aquiles do festival - por mais enxertos que se fizessem, a coisa ali nunca funcionava. Pois bem: com os enxertos, mas também com a novidade chamada Moreno, o grupo soou homogêneo e profissional nos dois primeiros atos da ópera, decaindo no terceiro. O titular da Orquestra Sinfônica de Santo André não é um dos primeiros nomes que vêm à mente quando pensamos em regentes brasileiros de ópera, mas talvez devêssemos olhar para ele com mais atenção.  


Cena da ópera Tosca, de Puccini [foto: divulgação/ Eunice Pinto-Agência Pará]