Vencedores & vencidos na vida musical

por João Marcos Coelho 14/05/2014

Espantaram-se com um detalhe constrangedor os que estiveram na primeira das duas noites em que se apresentaram esta semana na Sala São Paulo a pianista Mitsuko Uchida, a Orquestra Sinfônica da Rádio da Baviera e o maestro Mariss Jansons. Na primeira parte, preenchida pela execução do Quarto concerto para piano de Beethoven, a Sala estava apinhada, literalmente lotada. Depois do intervalo, várias poltronas ficaram vazias. Até onde percebi visualmente, isso se deveu em parte à debandada dos pianistas locais (será que Shostakovich ainda assusta o público em geral? Recuso-me a acreditar nisso). Afinal, os tecladistas estavam lá só para assistir à primeira apresentação da grande pianista japonesa no Brasil.

Um comportamento inexplicável. Quem não gostaria de assistir a uma das melhores orquestras da atualidade interpretando uma sinfonia de Shostakovich com o maestro que foi assistente direto do russo Evgeny Mravinsky?

Pelo visto, nossos coleguinhas do teclado não são exatamente músicos. São, em primeiro e absoluto lugar, pianistas. Dedicam-se apenas a seu instrumento. Minha intenção não é, de modo algum, particularizar a crítica. É, antes, anotar um sintoma preocupante.


Nossos coleguinhas de teclado são em primeiro e absoluto lugar, pianistas [foto: divulgação]

Os pianistas em geral já sofrem em virtude de seu trabalho solitário, em função da natureza autônoma de seu instrumento, ao contrário de seus parceiros de sopros, cordas e percussão, que convivem no seu dia-a-dia com muitos colegas, e têm um espírito naturalmente comunitário.

Mas não precisavam radicalizar tanto sua vida musical, reduzindo-a à audição de outros pianistas – mesmo assim, em casos especiais. Só vejo na plateia os pianistas locais quando aqui tocam as celebridades já ungidas pelo mercado internacional. Por aqui não viceja o hábito de ouvir colegas em recitais ou concertos com orquestra. Como ostras, concentram-se tão só em seu trabalho.

Mas não seria justo apontar o dedo apenas para os pianistas. Também os maestros em geral parecem considerar que assistir a concertos de colegas batuteiros não é uma boa. Mas na segunda-feira (dia 12), anote-se, havia vários maestros locais – menos que o necessário, dada a grande lição de regência que rolou no palco.

Pode ser a necessidade de competir num mercado pequeno, cruel, que dá espaço quase sempre a quem melhor se move nos melífluos meandros do jogo de influências e do lobby. Os músicos menos afeitos a este tipo de comportamento, como o grande Mário Ficarelli, que há pouco nos deixou, não costumam jogar este jogo abjeto. E, por consequência, acabam ficando à margem da vida musical.

Possivelmente a maior distorção da vida musical – não só aqui, no Brasil, mas no mundo inteiro – seja a necessidade fundamental de o músico desenvolver duas habilidades/carreiras paralelas: em primeiro lugar, ser bom de lobby, ter espinha dorsal flexível e bajular o poderoso de plantão; e só depois, em segundo lugar, preocupar-se em desenvolver-se musicalmente.

É, pensando bem, talvez eu tenha julgado mal os músicos que não se interessaram parcial ou integralmente pelo concerto de segunda-feira passada na Sala São Paulo. Afinal de contas, se não frequentarem em primeiro lugar os corredores e as salas certas do aparato artístico-burocrático nativo eles não vão chegar a lugar nenhum. Tá certo, tá certo. Primeiro a sobrevivência, depois as veleidades artísticas e estéticas. É isso mesmo ou estou surtando?

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