A vida “gloriosa” de Florence Foster Jenkins

por Camila Frésca 24/08/2009

Há algumas semanas assisti à “Gloriosa”, espetáculo de teatro em que a atriz Marília Pêra interpreta Florence Foster Jenkins, também conhecida por alguns como “a pior cantora do mundo”. À parte algumas opções da montagem em se forçar um humor a todo custo, de forma grosseira ou boba (como ocorre algumas vezes nos papeis destinados à atriz Guida Vianna), Marília Pêra constroi magistralmente sua Florence, e revela para muitos – como foi o meu caso – uma figura “lendária” na história do canto.

Florence Foster Jenkins nasceu na Pensilvânia em 1868, filha de um rico banqueiro. Ainda criança teve aulas de música e estudou piano, mas seu pai – quem sabe já percebendo sua falta de vocação – se recusa a pagar-lhe as aulas, o que a motiva a sair de casa e casar-se com o médico Frank Thornton Jenkins. Em 1902, ela divorcia-se e passa a ganhar a vida como professora e pianista. Com a morte do pai, em 1909, Florence passa a ser herdeira de boa parte de sua fortuna e pode finalmente dedicar-se ao canto – sua mãe, que ainda estava viva, não se importava que ela tomasse aulas, embora se opusesse às apresentações públicas. De toda forma, Florence passa a participar da vida musical da Filadélfia, e posteriormente de Nova York, e começa a dar pequenos recitais. Tornou-se também uma pessoa querida e popular, pois participava ativamente de obras de caridade e foi fundadora e financiadora do Verdi Clube, dedicado a promover a carreira de músicos norte-americanos.

Em 1928, com a morte da mãe, Florence encontra-se totalmente livre e com dinheiro suficiente para financiar sua carreira – isto com nada menos do que 60 anos. Nessa época conhece o pianista Cosme McMoon (na peça vivido pelo ator Eduardo Galvão), que a acompanharia até o final da vida, e passa a dar recitais cada vez mais disputados, com a peculiaridade de que os interessados em adquirir ingressos deviam antes passar por uma entrevista com a própria Florence – segundo ela, os bilhetes estavam à venda apenas para “os autênticos amantes da música”. Desta forma ela tentava impedir também que jornalistas e desafetos presenciassem seus concertos. Para se ter uma ideia de quão populares se tornaram suas apresentações, era possível encontrar na plateia nomes como Enrico Caruso, Cole Porter e Noel Coward.

Mas o que fazia dessas ocasiões algo tão especial? Por incrível que pareça, a total falta de talento de sua protagonista. Florence era uma cantora de péssima pronúncia em línguas estrangeiras, não afinava, tinha problemas de ritmo, respiração (veja um exemplo aqui/ http://www.youtube.com/watch?v=6h4f77T-LoM). A isto aliava-se uma personalidade excêntrica que inventava um vestuário extravagante – o mais famoso deles era o de “Anjo da Inspiração”, um vestido longo de filó complementado por uma tiara de brilhantes e um par de asas – que era trocado diversas vezes ao longo de um concerto. Numa entrevista dada muitos anos após a morte de Florence, Cosme McMoon afirmou que “cada um dos números que ela executava era memorável pela maneira particular com que o fazia, o que não se restringia ao que ouvimos nas gravações. Ela adicionava esquisitices, geralmente interpretando a letra, movimentando-se, ou ainda executando danças diferentes que eram extremamente divertidas”.

[A cantora Florence Foster Jenkins.]

O repertório destes concertos era composto por conhecidas árias de ópera, lieder e canções compostas por McMoon. O grande – e também último – momento de sua carreira aconteceu em 1944. Aos 76 anos, Florence deu um recital no Carnegie Hall. Foi sua única apresentação totalmente aberta ao público, e os ingressos esgotaram-se rapidamente, semanas antes da apresentação. Desta vez, não foi possível selecionar a audiência e os críticos tiveram entrada livre. Nos dias seguintes, todo o tipo de censura e até mesmo deboches saíram nos jornais. Reza a lenda que foi isso que desencadeou seu ataque cardíaco, uma semana depois, e sua morte, exatos um mês após a apresentação. Florence Foster Jenkins gravou alguns discos de 78rpm, que ela se deleitava em ouvir por demoradas horas. As peças foram relançadas em discos ainda hoje à venda, como “The glory (???) of the human voice”, do selo RCA.

“A pergunta que a gente [no elenco] se faz sempre é: ela tinha noção do que era e se fazia de louca ou não?”, afirma Marília Pêra, que aliás tem o grande mérito de construir um personagem complexo, que provoca riso e ternura e que ora parece realmente imerso em seu delírio de grande cantora e ora deixa entrever alguma consciência da realidade, que vem acompanhada de um quê de tristeza e solidão.

Para Cosme McMoon, Florence realmente acreditava em sua majestade. “Naquele tempo, Frank Sinatra começava a cantar e era comum que garotas desmaiassem e gritassem quando ele emitia notas mais agudas. Florence achava que produzia o mesmo tipo de efeito no público quando seus erros desencadeavam gargalhadas e balbúrdia. Ela tomava essas manifestações como grandes marcas de aprovação e muitas vezes fazia uma pausa, curvava-se agradecendo e recomeçava a canção”, relembrou. Ele ainda conta que boa parte da audiência, apesar de divertir-se, tinha sincero afeto pela cantora e desenvolveu uma convenção para “não ferir seus sentimentos”: “cada vez que ela desafinava muito ou fazia outro tipo de coisa que era impossível não rir, o público estourava em palmas e assobios, e o ruído era tão grande que podiam rir à vontade”.

Afinal, qual seria a real consciência de Florence sobre suas qualidades vocais e sobre a apreciação dos outros? Esta é apenas uma entre tantas questões – humanas e musicais – que sua história, mais parecida com um enredo de ficção, nos desperta e, ao mesmo tempo, causa inevitável fascínio.