Villa-Lobos, Glauco Velásquez e Alberto Nepomuceno na pauta da música brasileira

por Camila Frésca 03/07/2014

Recentemente, a Osesp apresentou um ótimo programa todo dedicado a Villa-Lobos: além do Prelúdio das Bachianas brasileiras nº 4, o público pôde ouvir o balé Uirapuru e as bem menos executadas Fantasia para violoncelo e o bailado (espécie de cantata profana) Mandu-Çarará. Foi uma grande felicidade assistir ao concerto por ver a orquestra interpretar tão bem composições de Villa-Lobos que são pouco conhecidas do público, ampliando o espectro de peças desse gênio brasileiro que frequentam nossas salas de concerto. A Osesp, aliás, tem encabeçado um importante movimento de novas gravações da obra de Villa-Lobos. Além de ter registrado a integral dos Choros e das Bachianas, agora ela se lança ao desafio de gravar todas as sinfonias do compositor. Além dela, outras iniciativas importantes nos anos recentes foram as do Quinteto Villa-Lobos (obras camerísticas para sopros), Quarteto Radamés Gnattali (integral dos quartetos de cordas) e de Fábio Zanon (obra para violão solo).

 
Heitor Villa-Lobos, Glauco Velásquez e Alberto Nepomuceno [fotos: divulgação]

Em junho, lembramos os 100 anos de morte de Glauco Velásquez (1884-1914), compositor que encantou o Rio de Janeiro do início do século XX e cuja morte precoce, aos 30 anos, deixou o meio musical tristíssimo: lamentava-se o desaparecimento de um jovem compositor que não pôde desabrochar plenamente seu imenso potencial. Mesmo após sua morte, tanto seus professores – como Frederico Nascimento e Francisco Braga –, como importantes intérpretes da época – como Paulina d’Ambrosio –, empenharam-se em difundir suas composições. O francês Darius Milhaud foi outro que ficou fortemente impressionado com a produção de Velásquez. Felizmente, não apenas os intérpretes contemporâneos a Glauco se encarregaram de manter viva sua obra: a pianista Clara Sverner foi uma das primeiras a gravá-lo, ainda na década de 1980; recentemente, em 2012, o Aulustrio realizou um trabalho importante, registrando em DVD os quatro trios para violino, violoncelo e piano, mais a edição das partituras em PDF (leia detalhes sobre o projeto aqui). Mais recentemente ainda foi lançado um CD com as duas sonatas para violino e piano de Glauco Velásquez, com a violinista Mariana Salles e o pianista francês François Pinel (selo ABM) – estas mesmas sonatas estão no próximo disco, que sai ainda este ano, da pianista Karin Fernandes e com o violinista Emmanuele Baldini.

Já no próximo dia 6 de julho comemoramos os 150 anos de nascimento de Alberto Nepomuceno (1864-1920). Compositor de sólida formação, sua obra representa um dos pontos altos da passagem do século XIX para o XX. Figura atuante na nascente República brasileira, a vida de Nepomuceno é um exemplo das batalhas e cenários vividos pelos músicos de sua época. Ele costuma ser lembrado pelo pioneirismo do canto em língua portuguesa: em 1895, realizou um concerto que entrou para a história por ter apresentado, pela primeira vez, uma série de canções em português de sua autoria, iniciando uma polêmica com aqueles que afirmavam que nossa língua era inadequada para o bel canto (você pode ler uma matéria sobre o compositor na Revista CONCERTO do último mês de junho). Além de cinco óperas (incluindo a inacabada O garatuja), Alberto Nepomuceno deixou ao menos duas peças importantes para orquestra: a Sinfonia em sol menor e a Série brasileira (que inclui o famoso Batuque). O compositor, no entanto, parece não gozar da mesma sorte dos dois anteriores, já que não existem projetos recentes dedicados a reavivar sua obra (embora haja, é verdade, diversas gravações esparsas de peças de câmara e algumas gravações raras e antigas da Sinfonia). Quem sabe a efeméride não desperte a atenção de alguma de nossas grandes orquestras para futuros projetos?

[Texto atualizado às 11h50 do dia 4/7/2014. Por erro de edição, a imagem mostrava uma foto de Alexandre Levy em vez de Glauco Velásquez. O erro já foi corrigido.]

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