Alcina: um Händel desigual

por Jorge Coli 03/07/2018

Alcina foi apresentada pela primeira vez em São Paulo apenas este ano, nas récitas do Theatro São Pedro que se concluíram recentemente: isso me garante Sergio Casoy, que não erra nessas coisas. Händel é um autor muito raro no Brasil. Em São Paulo, houve um Xerxes no Municipal em 1992, trazido da Inglaterra e, depois, uma apresentação mais modesta de Acys e Galatea, no Instituto Santa Marcelina. Mais nada, em toda a história das apresentações operísticas paulistanas! Só por isso, encenar Alcina é, sem discussão, uma iniciativa digna de todos os louvores.

Essas obras suntuosas da primeira metade do século 18 são magníficas, mas nada simples de montar. Das convenções teatrais, estilo de canto, muito se perdeu e muito mudou. É preciso um esforço que se situe entre a filologia e a invenção.

Em tais óperas se uniam dois tipos de teatralidade. 

Uma é exterior: suntuosidade, transmutação de cenários, em que um árido deserto pode se tornar um magnífico palácio, ou uma sala do trono transformar-se em selva perigosa. Espetáculo do maravilhoso que surpreende.

Outra é interna: exposição dos afetos que vibram nos personagens. A trama é menos importante do que os estados de alma individuais expressos pela música. Os vocalizes, sobretudo, encarnam sonoramente, de modo direto, as emoções.

William Pereira decidiu tomar o caminho contrário das montagens feéricas e variadas. Criou um cenário muito despojado, branco, em que mudavam apenas, por vezes e de modo homogêneo, as iluminações coloridas. Os bonitos figurinos vinham diretamente de Stars Wars, o que não contradiz em nada o espírito sobrenatural da ilha mágica em que reina a grande feiticeira Alcina.

Criava-se um curioso contraste entre o ambiente nítido, clínico, hospitalar, e os personagens de Star Wars, que pertencem a um mundo noturno e misterioso. Ruggiero vestia-se como um Jedi, e algum fã daquela saga poderia lembrar que aqueles nobres cavaleiros das espadas de luz nunca usariam uma arma tão vulgar como uma pistola. Poderia ainda acrescentar que, se no cinema, pistolas e revólveres são expressivos, raramente no teatro essas armas pequenas causam impacto dramático. 

Cena da ópera “Alcina” no Theatro São Pedro [Divulgação / Sergio Ferreira]
Cena da ópera Alcina no Theatro São Pedro [Divulgação / Sergio Ferreira]

Mas continuar com observações assim seria procurar pelo em ovo. O conjunto se sustentava como uma montagem quase semicênica. A concepção, abstrata, genérica (poderia servir para Turandot como para Semiramide, ou Parsifal, ou o que o leitor mais queira), suprimia o teatro do maravilhoso e punha em evidência o teatro dos afetos.

Para este último, havia um grande trunfo: a categoria da orquestra, regida com excelência pelo maestro e violinista Luis Otavio Santos. Santos é um familiar de Händel: foi ele o responsável pelo Acys e Galatea que mencionei acima.

Aquele teatro dos afetos exige voz, técnica e carisma dos intérpretes. Gestos soberbos, elegantes; vocalidade que eletriza, presença magnética. 

Marília Vargas, no papel-título, mostrou voz sem coloridos, mas homogênea, servida por bela técnica, agudos incisivos e uma “fúria barroca” convincente. Méritos que, com toda razão, arrebataram o público. O lamento “Ah! mio cor! Schernito sei!”, seguido pela cólera “Son reina”, assinalou o momento mais alto do espetáculo.

Norbert Steidl, baixo-barítono que encarnou o sábio Melisso, tem timbre sedutor e bela linha de canto: pena que seu papel fosse tão breve.

Carolina Faria e Caio Duran possuem sem dúvida qualidades musicais, mas que não correspondiam inteiramente às exigências da partitura.

Thayana Roverso como Morgana, um papel relevante, abriu a ópera com uma ária bem difícil. Nela, as imprecisões de afinação, os vocalizes aproximativos, faziam esperar pelo pior. Mas, em seguida, a intérprete soube fazer esquecer seus defeitos graças à presença cênica e aos agudos bem sustentados e projetados. Seduziu o público e deu consistência ao personagem.

Händel destinou o principal papel masculino, Ruggero, para Carestini, um castrato muito célebre, então no apogeu de sua voz. Era reputado pelo virtuosismo, pelo estilo e pela presença teatral. Sua parte, em Alcina, é especialmente difícil. Hoje ela é, no mais das vezes, atribuída a uma cantora cuja plasticidade vocal seja capaz de enfrentar a extensão e os ornamentos exigentes. Alguns intérpretes masculinos enfrentaram com galhardia essa partitura terrível; Philippe Jaroussky encarnou Ruggero em cena e, num CD consagrado a Carestini, gravou duas árias de Alcina.

Mas são casos raros. De modo algum foi o de David Feldman que, na montagem do São Pedro, encarregou-se desse papel. Seus limites vocais eram evidentes, assim como eram seu esforço, sua desafinação, sua incapacidade de vocalizar. Não se impôs como ator e, se o público não vaiou, ofereceu-lhe aplausos muito comedidos. Por que fazer vir do exterior um artista tão aquém do que a obra demanda?

Em suma, uma apresentação bastante desigual. Que Händel volte mais vezes em nossos palcos, e que a qualidade melhore, mais e mais!

Alcina foi interpretada com cortes nas danças e exclusão de um personagem, Oberto, sem grande expressão para a trama. 

Continuo inconformado com a prática de talhar e juntar os atos das obras para economizar tempo. Alcina tem três atos. Dividiu-se o segundo em dois, colando uma parte no primeiro, e a outra no último, estabelecendo desse modo um único intervalo. É tão insuportável assim manter dois entreatos, mesmo se mais breves? Poucos minutos a mais ou a menos não fariam grande diferença, e a unidade das divisões originais – que não são arbitrárias - seria respeitada.