Encomenda da Osesp mostra Mehmari maduro

Efemérides costumam oferecer um bom pretexto para reavaliar, divulgar e refletir a respeito de autores e obras que integram ou deveriam integrar o cânone de uma determinada cultura. No Brasil, como nossos compositores eruditos estão quase todos fora do cânone, cada “data redonda” representa uma oportunidade a não ser desperdiçada – sabe-se lá quando vai se repetir.

Em 2017, temos visto saudáveis lembranças dos 130 anos de nascimento de Villa-Lobos, dos 120 de Mignone e dos 250 de José Maurício Nunes Garcia, enquanto, infelizmente, não se percebem (ou, pelo menos, não apareceram no meu radar) festejos significativos dos 170 de Chiquinha Gonzaga, dos 90 de Osvaldo Lacerda ou dos 120 de Lorenzo Fernandez.

E essa ave rara chamada “compositor vivo”? André Mehmari completou 40 anos no final de abril; motivada ou não pela efeméride, a Osesp encomendou-lhe umas Variações Concertantes sobre um tema de Ernesto Nazareth, estreadas na Sala São Paulo na semana passada, no âmbito do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão.

Encomendas e performances de grupos brasileiros de ponta têm constituído a doce rotina de Mehmari. Uma lista extensiva nem caberia aqui. Tenho especial apreço pelo Quinteto Angelus [Assista aqui]  de 2005, que ele gravou com o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo – mesmo grupo que, no ano passado, tocou seu engenhoso Re:Cordade [Assista aqui]. Em 2015, a Filarmônica de Minas Gerais, sob regência de Fabio Mechetti, intepretou seu Divertimento [Assista aqui], e a relação com a Osesp remonta a 2006, quando um visionário John Neschling teve a coragem de encomendar a um compositor de menos de 30 anos de idade, que, ainda por cima, era acusado de vir da “música popular” (que, incrivelmente, continua a ser um estigma no Brasil do terceiro milênio), a Suíte de Danças Reais e Imaginárias [Assista aqui].

Nas Variações Concertantes, Mehmari revisita o universo de um dos compositores brasileiros com que mais identifica: Ernesto Nazareth (1863-1934), pianista-compositor como ele, também como ele na fronteira entre popular e erudito, cuja produção releu de forma imaginativa e inspirada no disco Ouro sobre Azul [Disponível na Loja CLÁSSICOS], lançando mão do jogo de citações que é uma das marcas registradas de sua poética.

A obra toma como ponto de partida um dos mais célebres “tangos brasileiros” de Nazareth – Fon-fon!, de 1913 –, como tema de variações que seguem, de uma certa forma, o gestual fluente, vertiginoso e bem humorado que acompanha Mehmari em suas apresentações para piano solo.

Obviamente, há diferenças entre o Mehmari solitário em seu banquinho e o que redige pautas para as dezenas de músicos da Osesp. Enquanto, ao vivo, ele pode ter inspirações súbitas e seguir o sabor do momento, a escrita orquestral é avessa a improvisações, representando a cristalização e a consolidação de um processo que parece estar em pleno andamento quando André está ao teclado.

Ouvi a obra na última sexta-feira, dia 31, e saí com a impressão de que Mehmari atingiu o equilíbrio justo entre a disciplina e organização da música sinfônica e a sensação de leveza, bom humor e liberdade do universo popular (embora ainda queira ouvir as Variações regidas por alguém com mais jogo de cintura e familiaridade com a música brasileira do que Marin Alsop). Não se trata de uma transcrição da leitura de Fon-fon! que ele já fez ao piano solo [Assista aqui], mas de uma obra bem mais extensa, e de maior fôlego, que demonstra seu inegável amadurecimento como compositor. Longe de serem gratuitas, as citações inseriam-se com organicidade no discurso musical; foi especialmente feliz a sobreposição de um trecho do primeiro movimento das Bachianas brasileiras nº 4, de Villa-Lobos, e Odeon, de Nazareth, demonstrando a mão firme de um compositor cada vez mais consciente de seus processos criativos e seguro no manejo da massa orquestral. O menino-prodígio da fita cassete e caneta no papel virou um sólido compositor adulto da era digital, para ser acompanhado de perto, e com atenção.