Para onde nos levará a onda de censura no país?

por João Marcos Coelho 31/10/2017

Assistimos nos últimos meses a muito barulho em torno de atos de censura inaceitáveis, mas cada vez mais frequentes. Começou com a exposição no MAM do Parque Ibirapuera e a reação furibunda dos sacerdotes da moral petrificada; continuou com o recuo de um banco a uma exposição em Porto Alegre e culminou com o bispo-prefeito assumindo-se como censor e proibindo a mesma exposição no Rio de Janeiro. Os jornalistas políticos enxergaram neste fenômeno o recrudescimento de uma perigosa polarização que pode nos levar a caminhos perversos que já trilhamos no passado.

E nestes dias, por causa da participação da filósofa norte-americana Judith Butler num seminário no Sesc Pompeia, este foi literalmente “invadido” por milhares de autodenominados censores atacando não apenas a iniciativa de sediar o evento, mas invalidando aquele importantíssimo centro cultural paulistano que, além de tudo, é um dos mais belos exemplos de exercício de arte democrática que temos.

Este tipo de censura é grosseiro. Na fúria de censurar o evento, leva de roldão também as instituições. Já se disse muitas vezes, mas não custa repetir: foi assim nos primeiros anos da década de 1930, quando a República Weimar foi sufocada aos poucos, com gestos radicais, porém localizados e orquestrados de tal modo que, quando o nazismo se impôs, corações e mentes da maior parte da população já estavam suficientemente anestesiados para aceitar as monstruosidades que aconteceram nos anos seguintes.

Por isso, é fundamental sermos proativos neste momento. Mostrar que existe sim uma parcela significativa da população brasileira que repudia estas atitudes. Existe, sim, consciência de que a liberdade, mais do que um bem que desfrutamos, é uma meta a ser conquistada e preservada com todos os nossos esforços. E os ataques à liberdade começam pelo cerco às artes, historicamente o fenômeno mais avançado da sociedade.

Bem, esta é a censura mais visível. Nutrida de preconceitos – um pouco, perdoe-se, por causa da deterioração dantes nunca vista das instituições políticas e sobretudo dos políticos nativos –, mas nem por isso aceitável.

Existe, porém, outro tipo de censura. Um veto silencioso, que poucos notam. Atinge, também historicamente, as artes contemporâneas, mas não como as manifestações contra a exposição no MAM – fenômeno que levou o Masp a uma atitude inimaginável: proibir o acesso de menores de 18 anos a uma de suas exposições atuais. Proibição inócua. Ora, se um adolescente frequentador do museu passear por seu acervo terá, certamente, o acesso a obras tão “deletérias” quanto as que estão na exposição sobre a sexualidade na arte.

Bem, mas eu queria mesmo é mostrar que a arte que mais sente, no dia-a-dia, este veto silencioso é a música contemporânea. Os músicos que gostam de tocar as criações de nosso tempo enfrentam dificuldades enormes para conseguir espaços mínimos para mostrá-las. Neste caso, a censura não é escancarada. É sinuosamente silenciosa. Simplesmente nega-se espaço à música contemporânea. E tudo fica por isso mesmo.

Ficaria. Porque grupos como o Percorso Ensemble, que semana passada comemorou seus 15 anos de existência com dois concertos e uma masterclasse no Sesc Bom Retiro, teimam em provar que é possível, mesmo com todos os ventos contra, construir uma trajetória importante e mostrar a música do nosso tempo. Às vezes as autoridades públicas ligadas à cultura deixam passar fenômenos como o da Camerata Aberta, que por três anos, e graças à possibilidade de ter um time permanente de músicos e ensaios semanais, chegou a se apresentar internacionalmente. Mas estes são espasmos rapidamente eliminados na primeira necessidade de corte nas verbas – como aconteceu com a Camerata.

Já o Percorso não depende de ninguém. De sua fraqueza fez sua força. E segue fazendo música contemporânea. Porque censura alguma, em tempo algum, vai conseguir calar a arte. Disso temos certeza. Mas precisamos, neste momento crucial do país, gritar o mais alto possível esta verdade. Fazer ouvir nossas vozes em meio a este ensurdecedor discurso que Hitler, Mussolini e Stálin adorariam ver redivivo em pleno século 21.