A produção é boa, mas faltou mágica na “Flauta” do Municipal

por Nelson Rubens Kunze 23/12/2017

O Theatro Municipal de São Paulo encerrou a sua temporada lírica de 2017 com uma boa produção de A flauta mágica, de Mozart. Econômica, mas bem realizada, a montagem foi a melhor ópera do teatro no ano.

Na estreia, sexta-feira dia 15, houve um pouco de ansiedade e alguns pequenos problemas de sincronia entre fosso e palco. No geral, contudo, foi o melhor “desempenho lírico” da Orquestra Sinfônica Municipal e do coro, sob direção segura do maestro titular Roberto Minczuk.

Um dos destaques da produção foi o equilibrado elenco composto quase que exclusivamente por cantores brasileiros – a exceção foi a argentina Oriana Favaro, que fez bem a Rainha da noite. Gabriella Pace como Pamina e Luciano Botelho como Tamino combinaram suas boas vozes em um lindo par, acompanhados no mesmo nível pelo Sarastro de Savio Sperandio e o Monostatos de Geilson Santos. Johny França fez um convincente orador e Luisa Francesconi defendeu bem o papel de Papagena. Cito por último o melhor da noite: o excelente Michel de Souza que interpretou Papageno. Michel de Souza tem voz e talento privilegiados – além de ótima pronúncia do alemão – e já tinha chamado a minha atenção no Messias de Händel levado no Theatro Municipal três semanas antes (aliás, esse ótimo Messias infelizmente passou despercebido. Sob direção de Minczuk, ele teve, além de Michel de Souza, a soprano Raíssa Amaral e os mesmos Luciano Botelho e Luisa Francesconi desta Flauta, em apresentação memorável).

André Heller-Lopes foi o responsável pela concepção e direção cênica do espetáculo. Competente em seu ofício, Heller-Lopes sabe construir narrativas e sempre imprimi uma marca de originalidade, o que também faz nesta Flauta. Heller-Lopes escreve no programa sobre o “caráter abertamente misógino (e, porque não dizer, até mesmo racista) de várias passagens do texto”, e declara a intenção de reler a ópera “à luz de nosso tempo”. Para ele, isso também significa repensar a interpretação comumente dada à história, que é a do embate entre o bem (Sarastro) e o mal (Rainha da noite). Esse dualismo é explícito no libreto de Emanuel Schikaneder, fortemente influenciado pelos ideais maçônicos do fim do século XVIII.

O ponto de partida de Heller-Lopes é válido, e o libreto é rico e dá ampla margem, em suas inúmeras camadas interpretativas, para essa leitura. A concepção cênica, contudo, é um pouco simplificadora, roubando do enredo uma riqueza e multiplicidade que lhe é própria. A leitura racional, esvaziada em “mágica”, não dá muito espaço para componentes naturais ou sobrenaturais, muito presentes no libreto. Não há o dragão que enfrenta Tamino (o dragão é transformado em uma estrutura física de madeiras e cordas), não há penas nem pássaros para Papageno, não há meninos gênios que descem das nuvens... E a flauta mágica é torta, retorcida.

Se soluções como o uso do celular pelas damas, a Rainha da noite a la Lady Gaga ou a “velha” Papagena imitando a personagem surda do popular programa de televisão “A praça é nossa” em um primeiro momento podem render resposta direta e aprovação do público, elas também distanciam ainda mais a encenação do enredo fantástico, fabuloso e mágico proposto pelo libreto de Schikaneder.

Tomara que essa Flauta mágica, pelos profissionais envolvidos, bons cantores e pela correção de sua produção, sirva como ponto de partida para uma reação de nosso Theatro Municipal.

[Clique aqui para ler o comentário de João Luiz Sampaio sobre A flauta mágica.]