Trio Villani-Côrtes faz uma ótima estreia com “Três tons brasileiros”

por Camila Frésca 14/03/2017

Sabemos do potencial que um grande projeto musical, desenvolvido seriamente e buscando excelência artística, pode gerar. Essas características vão gradativamente sendo percebidas pela comunidade, que passa a se interessar por ele, a acompanhá-lo e finalmente a abraçá-lo, reconhecendo ali algo que engrandece e beneficia a todos. Vimos isso acontecer em São Paulo com a renovação da Osesp, há quase duas décadas. Mais recentemente, o processo ocorreu em Belo Horizonte, com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (OFMG). Além do impacto direto que causa o projeto em si, gradativamente ele vai dando frutos indiretos, dinamizando o ambiente musical local e, consequentemente, nacional. Foi essa a primeira ideia que me ocorreu quando ouvi o CD “Três tons brasileiros”, do Trio Villani-Côrtes, lançado no final do ano passado.


 
Isso porque o grupo é formado por integrantes da OFMG, três jovens talentosos: a violinista sérvia Jovana Trifunovic; o violista João Ferreira, natural de Juiz de Fora; e o cellista Eduardo Swerts, de Belo Horizonte. Como o nome já entrega, o Trio Villani-Côrtes homenageia um dos mais relevantes – e tocados – compositores brasileiros da atualidade, o também mineiro Edmundo Villani-Côrtes. Um edital da Natura Musical permitiu que os músicos registrassem seu primeiro disco. Muito bem gravado e com excelentes interpretações, o CD traz uma inteligente escolha de repertório, com obras do mais importante compositor brasileiro de todos os tempos – Heitor Villa-Lobos – e dois compositores contemporâneos, de gerações diferentes, que dedicaram obras ao grupo, e cujas peças recebem, portanto, sua estreia mundial.

Trio em quatro movimentos, de Villani-Côrtes, abre o disco. É uma linda peça que, como muitas outras do autor, dialoga com o universo popular brasileiro. Os três primeiros movimentos são lentos e dolentes – PonteioValsa seresteira e Acalanto –, complementados por um animado Frevo para encerrar. Na sequência, Quatro movimentos musicais op.16, de Cláudio de Freitas. O compositor e fagotista mineiro, que já foi membro da Osesp e da OFMG, descreve a peça no libreto do disco: trata-se de “uma estória de amor em quatro quadros: EncontroDescobertaAcalanto Intriga”. A obra de Claudio de Freitas me surpreendeu positivamente. Conheço-o há algum tempo e é perceptível o amadurecimento de sua linguagem como compositor, escrevendo uma obra contemporânea e instigante, que capta a atenção do ouvinte, fazendo-o acompanhar a peça com interesse e convidando a uma nova audição para descobrir outras nuanças.

O disco se encerra com o Trio de cordas, de Villa-Lobos. A obra, pouco tocada e gravada, foi composta em 1945 e nasceu a partir de uma encomenda da Elizabeth Sprague Coolidge Foundation, criada pela célebre mecenas norte-americana, responsável por memoráveis obras de câmara do século XX. Igualmente em quatro movimentos, este Trio mistura um planejamento convencional com a inventividade e a influência popular que caracterizam a obra de Villa-Lobos.

[CD disponível apenas para compra por download na Google Play]